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Mar & Arte

Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

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Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

16.06.23

78 – Modelismo Naval 7.3.10 – Um outro Minibarco – A Barca ou “Barcha


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(continuação)

Caros amigos

 

A “Barca” de Gil Eanes

Para quem já não se lembre, esta série de “posts” sobre A “Barca” ou “Barcha”, começou em 9 de Março deste ano de 2023 com o post 69. Tinha comprado os Planos da “Barca” de Gil Eanes no Museu de Marinha em Lisboa e deparei-me com o modelo de uma “Barca” que eu estava longe de pensar que tivesse sido neste tipo de embarcação que Gil Eanes passou “para além do Bojador”.

As partidas de Gil Eanes para o Bojador foram feitas de Lagos, Algarve, Portugal, zona já em 1433/1434, com forte construção naval de pesca e de transporte de cabotagem (se não já com as primeiras tentativas de conceber uma embarcação mais adaptada ás condições de navegação no Atlântico do Noroeste de África, usando métodos de construção, que iam passando de geração em geração – aliás como em qualquer outra parte do reino – e possivelmente também inovadores, que tinham como paradigma, a construção das embarcações com o método mediterrânico de casco liso mais adaptadas, aperfeiçoadas e seguras.

Por outro lado, o tipo das embarcações que cruzavam as águas do “Atlântico Mediterrânico” navegavam, na sua maioria, com a força do vento impulsionando velas “latinas” ou velas “bastardas”, podendo eventualmente observarem-se embarcações com vela redonda arvorada, de proveniência da Europa do Norte e talvez, a par destas embarcações, outras iguais, de propriedade portuguesa (e/ou mandadas construir por portugueses), que faziam negócios com o Norte da Europa.

As minhas dúvidas prendiam-se, num primeiro ponto, com a construção do casco, pois os planos do “Museu de Marinha” indicam que se trata de um “casco trincado”, tipicamente do Norte da Europa e até têm incluídos os planos 5 – Secção Mestra e Âncora e o 6 – Pormenores de Pregação que informam como se sobrepõem as tábuas do costado e como as mesmas são unidas.

Fui apanhado de surpresa já que sabia que em Portugal tal técnica não foi usada, que seja do meu conhecimento, a não ser numa faixa a norte do Douro e em embarcações de cabotagem e fluviais – p.e. o “Barco Rabelo” do Douro e o “Carocho” do Minho. Penso que, a maioria das barcas que aparecem referidas em grande parte da documentação coeva portuguesa desde o séc. XIV, e que algumas podem referir-se a barcas de construção portuguesa, teriam a mesma forma bojuda, atarracada e de proa e popa redondas e simétricas, mas diferiam no modo de construção – casco liso X casco trincado – e muito possivelmente, também no aparelho – vela latina X vela redonda – vela latina essa de há muito usada na costa portuguesa, em especial na costa algarvia. Esta novidade para mim, revelou-se difícil de perceber e de aceitar

Todos estes pormenores causaram-me algumas dúvidas e, por isso, procurei obter informação mais pormenorizada, embora de uma forma não aprofundada, que me permitisse, com base nela (a informação mais importante) ter uma “fotografia” ainda que continuasse “tremida”, para qualificar e quantificar, náutica e morfologicamente, “A Barca de Gil Eanes”.

Pus mãos á obra, colhi o máximo de informação possível e, em cada um dos “posts” desta série alinhei, para mim de uma forma lógica, os principais assuntos que me permitissem decidir se esta era na realidade a melhor abordagem sobre “A Barca de Gil Eanes” ou se haveria uma outra, também dedutiva e baseada em informações, algumas também não factuais, que talvez fosse mais próximaa da realidade.

Neste momento quero reforçar aquilo que tenho afirmado ao longo desta série, que não sou historiador nem tenho pretensões a tal. Sou um simples modelista de “barquinhos” que tem por hábito, em qualquer modelo que faz, investigar o mais a fundo possível sobre o original e assim poder reproduzi-lo o mais fielmente possível.

Portanto, as minhas conclusões “inconclusivas” não são de forma alguma História mas sim uma estória e não farão parte das páginas dos manuais. No entanto aprendi muito com esta pesquisa e houve uma aprendizagem marginal de que já me tinha apercebido ter umas luzes e que consolidei mais, agora. É que a “nossa história” muitas vezes é só estória e que muitos historiadores são magníficos malabaristas.

Assim, em cada um dos “posts”, procurei alinhar a pesquisa por áreas, que se prendem com o meu desejo de esclarecimento, tendo ficado divididas da seguinte forma:

  1. Caracterização geral da “Passagem do Bojador” bem como das primeiras embarcações da Descoberta, em especial da “Barca” e do “Barinel”;
  2. As opiniões de vários historiadores e de uma filóloga considerados de referência, sobre o significado dos nomes “Barca” e "Barcha”;
  3. O “contexto humano” no qual teve lugar este acontecimento, considerando como atores principais o “Infante D. Henrique” e o navegador “Gil Eanes”, que se destacam no meio de todo um grupo que contribuiu fortemente para este acontecimento;
  4. O “contexto geográfico” que passa por uma abordagem de “Lagos” (no Algarve) no que diz respeito á sua génese e evolução, até ao período de 10 anos compreendido entre 1415 a 1434 incluído, datas estas mais ligadas ao feito de Gil Eanes, além de caracterizar a área do “Cabo Bojador”, com base numa “Descrição e Roteiro da Costa Ocidental de África” de 1866, bem como nos elementos meteorológicos e oceanográficos actuais (em termos gerais, houve mudanças nas características climáticas nos últimos 600 anos mas a matriz original conservou-se), com a mesma influência na navegação na área;
  5. O estado da Tecnologia Naval da época (1415 - 1434), abordando os poucos instrumentos de navegação disponíveis na altura, bem como a existência ou inexistência de Portulanos e Roteiros respeitantes à Costa Ocidental de África;
  6. Por último, uma abordagem sobre a construção naval, existente, à época, no reino e em especial no Algarve.

 

Naturalmente que muita coisa ficou para trás, por desconhecimento meu da existência de outra documentação, bem como pela minha impossibilidade de pesquisa de fontes pertinentes para este assunto. E ainda bem pois apercebo-me agora que aduzi muita informação para tão poucas conclusões, ou seja, que “a montanha pariu um rato”.

O que ressalta – e não sou só eu a dizê-lo – é a quase total ausência de informação pertinente sobre estes dois tipos de embarcações (entre outras coisas)– A “Barca” e o “Barinel” o que põe em causa qualquer afirmação final definitiva. Isto leva a uma situação de “qualquer coisa e o seu contrário” serem admissíveis.

Durante a leitura das fontes consultadas – e foram muitas – apercebi-me também que, na maior parte das vezes no que diz respeito a acontecimentos antigos pouco documentados, as “certezas” apresentadas em algumas fontes ditas de referência baseiam-se em suposições e deduções, por vezes sem muita lógica – na base de que já foi dito pelo “fulano de tal” que se cita – caindo-se no risco não só da alteração do conteúdo como de se estar a repetir qualquer coisa de menos bem. Por outro lado existiu (existe?) por vezes alguma manipulação de factos tendente a provar afirmações iniciais. Temos, como exemplo, o uso da história pelo Estado Novo para o “engrandecimento da Pátria”.

Também me apercebi de que, qualquer dedução errada, feita por um historiador de referência, com muita dificuldade se consegue alterar, permanecendo, através dos tempos, como “a verdade”, apesar de ter sido manipulada.

Mas passemos então às conclusões “inconclusivas”.

 

8 - Conclusões (algumas, inconclusivas)

 

          8.1 – As primeiras embarcações da Descoberta – a “Barca” e o “Barinel”

Muitas obras escritas sobre a História dos Descobrimentos omitem (ou desconsideram), quando se referem às embarcações, que os portugueses usaram durante esta aventura a “Barca” e o “Barinel”, referindo apenas a existência de Caravelas, Naus e Galeões.

Sem dúvida que estas duas embarcações fizeram parte da panóplia usada nos Descobrimentos logo no início, embora tenham desaparecido quase completamente após as primeiras viagens feitas para além do Bojador e foram as percursoras desta odisseia dos Descobrimentos durante perto de vinte anos.

No entanto e de uma forma plausível, deve ser considerado que, há quem defenda que as primeiras viagens foram feitas em embarcações de pesca dos pescadores algarvios que iam pescar para o Atlântico no Noroeste de África. Sem dúvida que contribuíram para o conhecimento de parte da costa embora o objectivo não fosse esse. No entanto, deve ter sido desse Povo anónimo que saiu a maioria dos marinheiros que serviram a bordo das embarcações desta primeira fase dos Descobrimentos, pelo menos até â passagem do Cabo Bojador.

Muito possivelmente, embarcações deste tipo, com poucas melhorias nas condições de navegabilidade mas tendo aumentado o arqueio das mesmas e possivelmente com outro tipo de velame, foram utilizadas pelos homens do Infante nas primeiras viagens em direcção ao Sul pela costa de África.

Mas as Barcas, devido a vários novos problemas que foram postos durante estas viagens, rapidamente tiveram a par, primeiramente  Barinéis, e por vezes navegaram em conjunto.

Mas o que são estas embarcações que dão por nome de “Barca” e de “Barinel”? Existe pouca informação sobre elas. Sobre o” Barinel” é quase nula. Sobre a “Barca” existe um pouco mais.

Sobre o “Barinel” a sua origem parece ser o Mediterrâneo, mais concretamente uma das cidades república que integraram a Itália – Veneza (?) Seria uma embarcação um pouco maior (?) do que a “Barca” (1) e teria uma proa parecida com as proas das naus e uma popa redonda como a “Barca”. Calava mais fundo do que a “Barca” (calar-ocupar um determinado espaço abaixo da linha de flutuação). O número de mastros seria de um a dois (três?) e teria um aparelho redondo quando de um mastro e um aparelho misto quando de dois mastros, envergando um dos mastros (o da popa) uma vela latina. Poderia ter remos para navegar sem vento e para algumas manobras de navegação.

Depois da passagem do Bojador, na viagem posterior a “Barca” de Gil Eanes tornou a passar para além do Bojador e foi acompanhada (ou acompanhou) um “Barinel” comandado por Afonso Baldaia. A informação que existe sobre esta embarcação é a que se pode retirar de um modelo da época medieval, o Modelo de Mataró, (uma Coca?) que se encontra exposto no Museu Marítimo de Roterdão, datada de entre 1456 e 1482 e que tem como proveniência uma pequena igreja duma aldeia chamada Mataró, na costa da Catalunha, em Espanha, perto de Barcelona.

Até agora, não existe nenhuma outra representação ou descrição da época desta embarcação. E as referências pelos cronistas da época a esta embarcação são escassas.

É uma caso de ”pensa-se que…”! Por mim, tenho as minhas dúvidas! Mas, se dizem que é um “Barinel, parece um “Barinel” e navega como um “Barinel”, então é um “Barinel”! Vamos por aí! (2)

(1) – Na “Chronica do Conde D. Pedro de Menezes”, no cap. XLII, Azurara fala de uma barca ao “serviço do barinel” o que chama a atenção para a relação de tamanho entre “Barinel” e “Barca” sendo possivelmente esta última, bem mais pequena;

(2) – Segundo Carbonell Pico (Bibliografia 36, p. 55) o termo “Barinel” aparece pela primeira vez no Português em documento de 12 de Abril de 1436 <…E que ajnda mandarom hu Barinel a Ingraterra…>. O verbete diz que o termo pode ser de origem Francesa (balenier), Espanhola (ballener) ou Italiana (barinello).

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“O Modelo de Mataró”

Mas é um “Barinel”, uma “Coca”, uma “Nau”, ou uma “Caravela? (não Portuguesa)

 

Quanto à “Barca”, cuja informação é maior e mais consistente, na sua versão mais simples de pesca costeira, navegação de cabotagem e fluvial, era um barco de boca aberta, de popa e proa redondas, com leme de “espadela” normalmente a estibordo e era usada no tráfego marítimo e fluvial, havendo um grande número de aplicações para os seus serviços e tomavam os nomes conforme os tipos de serviços que prestavam.

Tinham entre 10 a 20 metros de eslora e uma boca de 2,5 a 3,5 metros. Em viagens mais longas e distantes teriam uma “coberta”.

Podemos considerar a existência de dois modelos de barca a saber:

  • Uma barca redonda com origem nas barcas do norte da Europa, de um único mastro (por vezes dois, um grande e um traquete) com leme de espadela (a estibordo ou a bombardo ou nos dois bordos) e vela redonda (quadrada) nos dois mastros, se existissem dois. Apesar dos cascos das barcas nórdicas serem “trincados”, estou em crer que, se construídas em Portugal, principalmente no sul, teriam casco liso. Podiam ser de “boca aberta” ou, se destinadas a grandes viagens, com um “convés”;

 

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Barca Redonda

Modelo no “Museu de Marinha” – Lisboa

 

 

  • Uma barca com origem nas Barcas do Levante do Mediterrâneo, com 13,5 metros de comprimento, ou mais pequenas, que também era de boca aberta, tendo 4,2 metros de boca e com popa redonda. O leme devia de ser axial, montado no cadaste da popa, sem painel. Com um só mastro, envergando pano latino. Chamava-se Barca Pescareza e, por vezes Caravela Pescareza (não confundir com a Caravela dos Descobrimentos).

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Barca Pescareza

Modelo no “Museu de Marinha” - Lisboa

 

Nota: As medidas indicadas não são fixas por impossibilidade de as fixar pois não existe informação nesse sentido. Portanto poderiam ser maiores ou mais pequena.

Como, conclusões teremos:

1 – Existiram simultaneamente (1415 – 1434) dois tipos de “barcas” sendo um de origem nórdica e a outra de origem Mediterrânica;

2 – O “barinel” existiu em Portugal, como embarcação, pelo menos desde 1435 (data da viagem a sul do Bojador de Gil Eanes numa “barca” e de Afonso Baldaia num “barinel”), (Bibliografia 1); embora Carbonelli Pico registe o aparecimento do termo escrito em documentação portuguesa só no ano de 1436. (Bibliografia 36).

A sua morfologia é incerta, tendo no entanto sido adotada uma morfologia parecida com o modelo da “Nau de Mataró”;

 

            8.2 – A diferença (se houver), entre o termo “Barca” e “Barcha”

A embarcação denominada hoje “Barca” (3) aparece em documentos da época dos descobrimentos ou anteriormente, também grafada como “Barcha” e “Barqua”. Pondo de parte esta última grafia que não suscitou qualquer polémica sendo pacífica a consideração que se tratava da mesma embarcação denominada “barca”, seriam a “barca” e a “barcha” duas embarcações diferentes? Embora existam opiniões de que eram diferentes não morfologicamente mas sim em capacidade de carga, possivelmente eram o mesmo tipo de embarcação com dois tipos diferentes de grafia, conforme a época.

(3) – Em referência às “barcas” medievais e do séc. XV, hoje em dia, na classificação dos Grandes Veleiros, o termo barca classifica, pelo tipo do aparelho desses veleiros, como barca, um veleiro com o aparelho como o do Navio Escola “Sagres”, com três mastros (não contando com a Bujarrona) a saber: Traquete à proa. Grande na meia-nau e Mezena à popa. Os dois primeiros envergavam velas redondas e o terceiro uma vela latina trapezoidal, a vela de Ré e uma vela de Gavetope. Muitas vezes este aparelho vinha de uma transformação da aparelhagem inicial dos navios que era de galera, como é o caso da “Sagres II”, que se encontra hoje no porto de Hamburgo, como navio museu, tendo voltado á sua cor original de 1896 e também mudado o nome para o original “Rickmer Rickmers”.

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Rickmer Rickmers”

 

 

Nota:

Actual navio-museu ancorado no rio Elba no Porto de Hamburgo, construído nos estaleiros de Bremerhaven – Alemanha em 1896, tendo servido na Marinha Mercante Alemã como transporte de algodão do Extremo Oriente para a Europa. Em 1912, foi vendido a um outro armador alemão de Hamburgo e foi rebatizado como “Max”. Em 1916 (1ª Guerra Mundial) foi apresado por Portugal no porto da Ilha das Flores – Açores, a pedido do Governo Britânico e emprestado ao mesmo governo, tendo servido até ao final da guerra com o pavilhão Britânico e com o nome de “Flores” sendo devolvido a Portugal no final dessa mesma guerra. Em 1927 o navio foi convertido em navio-escola para a Escola Naval Portuguesa com o nome de “NRP Sagres II” (4). Em 1962 foi substituído, como navio-escola da Marinha, pela “NRP Sagres III“(antigo navio escola “Guanabara” da Marinha do Brasil e atual navio escola da Marinha Portuguesa), tendo sido rebatizado como “Santo André” e reclassificado como navio depósito.

Em 28 de Abril de 1983 o navio foi entregue à associação Alemã “Windjammer für Hamburg” por troca com o “NRP Polar”.

(4) – Antes desta “Sagres II” já tinha existido a “Sagres I” (Corveta Sagres), que foi lançada á água em 3 de Junho de 1858, em Portsmouth (Inglaterra) Tendo chegado a Portugal no dia 18 de Setembro de 1858 foi incorporada na Armada tendo “efectuado relevantes missões diplomáticas e de interesse nacional”. Em 13 de Novembro de 1876 passou ao estado de desarmamento, tendo sido adaptada como Navio Escola que estacionou no Cais do Bicalho, no rio Douro, no Porto

Em 1898, a Escola de Alunos Marinheiros do Porto, foi transferida para a corveta “Estefânia”. Em 7 de Setembro desse mesmo ano, a corveta “Sagres” foi abatida ao efectivo e desmantelada de seguida.

 

Mas vamos revisitar Maria Alexandra Carbonell Pico (M.C.P.) que, nestas coisas de filologia é considerada internacionalmente como uma referência, mesmo pelos que não estão de acordo com ela, que elaborou um extenso verbete sobre este assunto. (Bibliografia 36, pp. 33/51).

Segundo M.C.P. a palavra “barca” vem do latim barca, com abonações em Stº Isidoro (Etymologiae 19,I,19), em Nascentes (Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa – DEP)) e em Corominas (Dicionário Critico Etimológico de la Lengua Castellana – DCEC).

O termo aparece pela primeira vez no Português, com a grafia “barca” no ano de 911, continuando a aparecer até 22 de Abril de 1404, altura em que aparece grafado em documento português o termo “barcha” que continuará durante o séc. XV em que, na “Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal” de Fernão Lopes, aparece isoladamente o termo “barqua”. Com esta excepção, o termo “barcha” continua a ser usado (por vezes no mesmo texto) misturado com “barca”, principalmente por Fernão Lopes na sua “Crónica de D. Fernando I” que usa indiscriminadamente “barca” ou “barcha”.

Toda a documentação que M.C.P. estudou, tem as mais diferentes concepções de “barca/barcha”. Se por um lado considera a “barca/barcha” como “trazendo navios ao seu serviço” por outro lado fala delas como estando ao serviço de outros navios, como escaleres dos mesmos. As “barcas/barchas” poderiam ter tido todos os tamanhos possíveis. E o debate foi estabelecido no campo do tamanho das “barcas/barchas”.

Aqui, as “teses” defendidas dizem, que os termos “barcha” e “barca” referiam barcas maiores e barcas mais pequenas.

Das características conhecidas das “barcas/barchas” as três caracteristicamente mais marcantes, diziam respeito a terem a proa e a popa redondas em simetria, e a uma silhueta marcadamente bojuda e de baixo calado. As introduzidas com origem na Europa do Norte, com casco trincado e vela redonda e as introduzidas via Mediterrâneo com casco liso e vela latina (vela a la trina – de onde é possível ter derivado a designação de vela latina).

Há quem defenda que a “barcha” referia-se ao tipo de embarcação com origem no norte da Europa e “barca”, à embarcação originária do Mediterrâneo.

Azurara usa o termo “barcha” referente á barca de Gil Eanes se se consultar o códice de Paris da “Crónica da Guiné”, mas se a consulta for feita na mesma obra que nos chega pelo códice de Munique aparece “barcha” e “barca”, referente ao barco de Gil Eanes.

João de Barros, que escreve depois de Azurara, no livro I “Da Ásia”, num dos parágrafos, ao falar de uma determinada barca (não a de Gil Eanes) refere-a como “barca” e, para a mesmíssima barca, duas linhas a seguir refere-a como “barcha”!

Quem Sabe! Who knows! Chi lo sa!

Carbonell Pico por fim põe, para mim, um ponto final neste assunto que nada tem a ver com um debate entre Historiadores de Marinha mas sim com a Língua Portuguesa, considerando “Barcha” como uma variante ortográfica de barca, que se conservou ainda durante algum tempo depois da supressão por síncope do “h” passando a escrever-se “Barca”´.

Existem imensos exemplos em português destas alterações por supressão de letras. Neste momento lembro-me de Arquivo por Archivo.

Este é um facto que acontece em todas as línguas. De fato isto acontece, venha ou não venha melhorar a compreensão da língua

Como conclusão teremos:

3 - Os termos “barcha” e “barca” foram usados simultânea ou alternadamente para nomearem a mesma embarcação independentemente da sua origem;

Por hoje é tudo.

 

(continua)

Um abraço e...

Bons Ventos