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Mar & Arte

Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

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27.03.22

57 – Modelismo Naval 6.2.1 – Baleação – Uma mini-história


marearte

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Baleação

BB6-Vai afundar-nos corta, corta-VB.jpg

Desenho tipo "scrimshaw" de Victor Boga -Açores

 "A lembrança das coisas passadas não é, necessariamente,

a lembrança das coisas tal como se passaram"

 

Marcel Proust - "À la Recherche du Temps Perdu"

 

Caros amigos 

Em 2016 iniciei uma série de posts que tinham como intenção abordar a temática da “Baleação” a nível mundial tendo como objetivo um índice que publiquei em Junho de 2016 (republicado em 19-09-19) no post 22 – Modelismo Naval 6.1.1. – Baleação – Uma Introdução e Fontes e que passo a transcrever:

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“Este tema - Baleação - vai ser abordado em vários posts que penso publicar, da seguinte forma:

  • O presente post -  Modelismo Naval 6.1 - Baleação - Uma introdução e as fontes, onde abordarei o tema de uma maneira geral e referirei as principais fontes de que me vou servir;

 

  • Um segundo post - Modelismo Naval 6.2 - Baleação - Uma mini-história, que terá como foco uma (mini) história mundial da baleação, desde as suas origens, aos nossos dias;

 

  • Um terceiro post - Modelismo Naval 6.3 - Baleação - O Bote Baleeiro de Nantucket (New Bedford - USA), que terá como tema a baleação "on shore" levada a efeito na América do Norte e onde apresentarei um dos modelos de bote baleeiro usado na caça à baleia na costa Este (já construído, em conjunto com o meu neto Tiago em 2014);

 

  • Um quarto post - Modelismo Naval 6.4 - Baleação - Os Barcos Baleeiros do séc. XIX/XX - O "Charles W. Morgan"uma abordagem da baleação "off shore" dos grandes veleiros baleeiros feita com base em Nantucket e New Bedford e onde será apresentado o modelo da barca baleeira "Charles W. Morgan", o único exemplar ainda existente e navegável de um navio baleeiro (nesta data já construído);

 

  • Um quinto e último post sobre - Modelismo Naval 6.5 - Baleação em Portugal, que abrange a actividade realizada em Portugal, quer no continente quer nas ilhas, quer nas ex-colónias, com especial ênfase no Arquipélago dos Açores onde figurará um modelo do Bote Baleeiro Açoriano semelhante ao exemplar "Ponta Delgada" que se encontra exposto no Pavilhão das Galeotas do Museu de Marinha, em Lisboa e com base em planos elaborados pela Direção Regional da Cultura do Governo Regional dos Açores  em 2016 (em fase de início de construção).

 

Estes posts irão com certeza ser desdobrados, pois a matéria é vasta.”

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Infelizmente, os acasos da vida (também “ocasos”, neste caso) trocam-nos as voltas e só agora, 6 anos depois, estou em condições de retomar esta tarefa que já devia estar realizada.

Da totalidade das minhas intenções – 5 posts subdivididos em várias partes pois o assunto é vasto – foi por mim publicado o post 6.1 referente a “Uma Introdução e as Fontes” a saber:

 22 – Modelismo Naval 6.1.1 – Baleação – Uma Introdução e as Fontes.?-06-16. (Republicado em 19-09-19)

 23 – Modelismo Naval 6.1.2 – Baleação – Uma Introdução e as Fontes. (Continuação) 04-06-16

 24 – Modelismo Naval 6.1.3 – Baleação – Uma Introdução e as Fontes (Conclusão) 07-06-16.

Temos assim as 3 partes do primeiro post publicadas.

Passemos então ao post 6.2 – Baleação – Uma mini-história

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KÉ e MERR

Depois de uma forte tempestade (a maior dos últimos tempos), que a tribo tinha aguentado durante cinco dias ao abrigo de uma caverna junto ao mar, Ké e alguns do clã, aventuraram-se a sair do refúgio para procurar comida no mar, cujas águas tinham desaparecido no horizonte. O pouco peixe que havia tinha acabado logo no primeiro dia e durante os outros quatro mal se alimentaram de raízes e folhas que as mulheres tinham recolhido.

O mar sempre tinha sido a principal fonte de alimentos, pois conseguiam caçar alguns peixes, as mulheres e as crianças conseguiam apanhar conchas saborosas antes da água voltar e as algas que davam à costa, apesar de difíceis de comer, confortavam  a barriga.

Naquele dia havia muitas poças na areia e tinham esperança de conseguirem apanhar algum peixe que tivesse sido arrastado pela tempestade.

Ké o "mais velho" do clã, era o que normalmente dirigia estas expedições de caça pois era considerado pelos outros como o que mais habilidade tinha para apanhar peixes com a lança e, por vezes, com o pequeno cacete que todos usavam. Tinha sido ele que tinha morto um peixe, com o tamanho de um homem e que atacou várias vezes os caçadores tendo ferido um deles que acabou por morrer. Ké usava à volta do pescoço, enfiados numa “kambala” (fio feito de casca de árvore torcida), os dentes desse peixe.

O clã era pequeno mas já eram em número bastante para ser necessário procurar comida quase diariamente a não ser nos dias em que a caça de peixe tivesse sido em grande quantidade. Neste caso, durante dois ou três dias não era necessário caçar.

O filho de Ké, Merr, ainda pequeno, participava também na caçada daquele dia. Da caverna onde se encontravam avistava-se uma vasta extensão de areia pois ficava numa falésia sobranceira ao mar e Merr ao sair, tinha visto no mar, no sentido contrário ao que eles se dirigiam, uns peixes muito grandes que nadavam fora de água e deitavam água para cima. Já noutras ocasiões os membros do clã tinham visto peixes desses mas sempre longe, muito longe. Merr, habituado a que nunca ligassem ao que dizia, não se atreveu a chamar a atenção do grupo que, nitidamente estava muito mais virado para a caçada.

O grupo iniciou a busca e foi-se afastando da caverna e apanhando algum peixe que iam encontrando em pequenas lagunas que o mar tinha deixado na praia.

Ké, sempre atento a tudo o que acontecia à sua volta - por isso tinha sobrevivido até à data - procurava ver o que acontecia à sua frente. E viu, ao longe, sobre a areia, longe das falésias, uma forma que ele não se lembrava de ter visto antes. Chamou o filho que, apesar de ajudar na recolha do peixe podia ser dispensado e, indicando-lhe a forma que tinha avistado e que se destacava no horizonte da costa, disse-lhe que fosse à frente para ver o que era aquilo.

Merr pôs-se a correr na direção que o pai lhe tinha indicado e Ké como o restante grupo continuaram na sua faina da recolha de peixe que tinha ficado preso em pequenas lagunas que, por sorte, eram em grande quantidade.

Numa dessas lagunas estava um cardume de peixes esguios, que nadavam com grande agilidade e que os obrigou a, durante muito tempo, se dedicarem a correr atrás deles e a apanharem a sua maioria à cacetada.

A distância que os separava da forma que Ké tinha mandado o filho identificar ainda era grande e a agitada faina da caça tinha distraído Ké que nunca mais se lembrou do filho.

Olhou para o horizonte e, a forma lá estava mas o filho não era visível. Chamou dois companheiros e juntos, deixando o resto do grupo a terminar a apanha dos peixes daquela laguna, puseram-se a correr em direção à forma.

Quando chegaram ao pé da forma o Merr não se encontrava em nenhum lado. Procuraram em volta da forma e o Merr continuava sem aparecer. A forma dava ideia de ser um peixe igual aos que eles viam ao largo. E era enorme. Comprido e em altura ultrapassava em muito a de Ké que era bastante alto.

A forma não se mexia. Estava deitada de lado e tinha a boca, por sinal bem grande (parecia a entrada de uma gruta) entreaberta. O grupo pôs-se aos gritos a chamar por Merr.

E Merr apareceu, vindo de dentro da forma, assustadoramente completamente coberto de sangue, com a faca de pedra numa mão e na outra, a arrastar pelo chão, um grande pedaço de carne vermelha.

O sangue corria-lhe da boca. Vinha a mastigar. E tinha um sorriso de felicidade na cara!

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Não custa nada acreditar que esta pequena ficção possa representar o primeiro encontro dos seres humanos com as baleias.

 

 A História da Baleação

Baleia Pico.jpg

Baleia-azul (Balaenoptera musculus) nas águas dos Açores, ao fundo a ilha do Pico com destaque para a Montanha do Pico.

 

Baleação  (também conhecida como pesca ou caça às baleias) é o nome genérico dado à caça à baleia e ao cachalote, incluindo as tecnologias, tradições e formas sociais de organização dos baleeiros.

(A baleação é por vezes incorretamente referida como pesca da baleia, o que implicaria que a baleia seria um peixe e não um mamífero.)

A baleação teve grande expressão em diversas regiões costeiras e insulares do mundo, com grande relevo para Nantucket e New Bedford, na Nova Inglaterra, os Açores, o Arquipélago da Madeira, ilhas Faroé, a Islândia e as ilhas Svalbard.     

 As mais antigas referências a nível mundial que existem indicam-nos que a actividade da caça à baleia terá sido iniciada na costa da actual Coreia do Sul após a descoberta em Bangu-Dae no ano de 1971 na “falésia da Tartaruga” de um conjunto de gravuras rupestres (248) sendo 173 de figuras de animais das quais 52 (30% do total) são de cetáceos (6.000-1.000 BCE).

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Cena de caça com um barco tripulado por cinco pessoas (à esquerda), um possível flutuador (à direita) e um cetáceo arpoado -Orca? - (no centro). Uma das imagens gravadas na pedra no sítio referido anteriormente, Bangu-Dae na atual Coreia do Sul.

 No entanto, o aproveitamento de cetáceos pelo homem, que tenham dado à costa de tempos a tempos, está documentado na estação arqueológica do Dungo, perto da “Baía Farta” em Angola, pelo aparecimento de um esqueleto de um grande cetáceo de uma dezena de metros que foi descoberto numa praia fóssil, acompanhado de 57 vestígios de indústria lítica, principalmente machadinhas e pedras truncadas atribuídos à cultura de Oldowayen, uma das primeiras indústrias da humanidade. Uma datação pelo Uranio-Tório sobre uma concha de ostra recolhida no local dá uma idade superior a 350.000 anos.

As baleias têm sido caçadas desde tempos remotos. Os registos mais antigos conhecidos de baleação são gravuras rupestres entalhadas em rochas do sul da Coreia com cerca de 8000 anos de idade Desde esses tempos, a caça foi-se tornando progressivamente mais sofisticada, expandindo-se das águas costeiras para as áreas oceânicas à medida que as embarcações foram melhorando e melhores métodos de navegação e processamento das carcaças foram sendo desenvolvidos.

 

(continua)

Um abraço e...

Bons Ventos