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Mar & Arte

Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

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18.09.19

49 - Modelismo Naval 7.25 - "Cutty Sark" - O Modelo 3.6


marearte

ib-04.1.jpg

 

 (continuação)

 

Caros amigos

 

Alguns pormenores do aparelho montado no modelo – II (continuação)

(Apontamentos sobre as Gáveas Partidas (duplas), os Aparelhos Fixo e de Laborar do Grande e da Mezena e as Velas Auxiliares do Traquete e do Grande)

A nomenclatura que é usada para a designação de determinados componentes do navio é, a maior parte das vezes, extensível a qualquer componente igual localizado em bordos diferentes ou noutro local do mesmo navio ou de outro semelhante.

 

A abordagem dos mastros que foi apresentada até aqui foi feita numa perspetiva por ante a vante tendo ficado alguns pormenores “escondidos” já que, por ante a ré dos mastros existem pequenas coisas que necessitam ser compreendidas por serem importantes no contexto da manobra e mareação do navio. Esse é o assunto deste post. O

 

7 – Mastro Grande visto de Ante a Ré

Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicado para cada um dos mastros.

 

cuja fotografia permite visualizar as vergas da Gávea Alta (1)  e da Gávea Baixa  (2) e as respetivas velas, às quais se encontram acoplados os Paus de Cutelo (3) e Paus da Varredoura (4) (Paus colocado sobre a verga de papa-figos e gáveas, enfiados em aros e que servem de suplemento, prolongando-se para fora destas vergas a fim de neles se largarem, com tempo bom (1), pequenas velas auxiliares às gáveas e aos joanetes. Há os paus que trabalham na verga do papa-figos e na verga da vela grande – paus de varredoura; os paus que trabalham na verga do velacho, na verga da gávea, na verga do joanete de proa e na verga do joanete grande – paus  de cutelo; e, eventualmente, os que trabalham na verga do sobrejoanete grande – paus de cutelinho. O seu comprimento é cerca de metade da verga com  a qual se prolonga. A sua extremidade de fora também se chama lais como nas vergas e a da outra ponta, pé) que trabalham em aros de metal, Anéis – de dentro e de fora (5, 6, 7 e 8), que se encontram chumbados na verga, de cada um dos bordos, os de dentro a meio do braço da verga e os de fora na ponta do lais da mesma.

Além disto está visível na parte de baixo do mastro grande um Pau de Carga (9) (Vergôntea de madeira, aço ou treliça, com o pé apoiado em junta universal – cachimbo ou mangual – a um mastro ou mesa, tendo na cabeça um aparelho de laborar ligado a um guincho para movimentar carga entre a escotilha e o cais ou outra embarcação).

Na vela da gávea alta encontra-se uma forra de Rizes (10) bem como são visíveis as Enxárcias do Mastro Real do Grande (11), as Enxárcias do Mastaréu da Gávea (12), e a Enxárcia do Mastaréu do Joanete Grande (13). Também os mastros reais, os mastaréus das gáveas e os mastaréus dos joanetes do traquete e da mezena têm enxárcias iguais. (2)

(1) O uso das velas auxiliares com tempo bom quer dizer com vento fraco, representa o aumento da superfície velica à acção do vento o que vem contribuir para aumentar a velocidade dos navios. No entanto mesmo com borrasca, muitos capitães largavam velas auxiliares pois aumentar 1 ou 2 nós na velocidade, ao fim de uma viagem, somava muitas milhas percorridas a mais no mesmo tempo. Comparando com a lona das velas da andaina normal do navio, o “brim” que era usado nas auxiliares era muito menos resistente e com ventos fortes rasgava-se com facilidade. Como penso já ter escrito anteriormente, o uso destas velas não está bem claro mas pode-se dizer que não dependia do bom tempo mas sim do arrojo dos capitães. Milita a favor desta tese a iconografia da época que apresenta algumas obras com os navios a correrem com todo o pano no ar, incluindo as velas auxiliares e com mar de borrasca. Também é esta a opinião dos oficiais do veleiro holandês “Stad Amsterdam” que têm vindo a testar várias hipóteses de uso das velas auxiliares.

(2) Embora muitos veleiros de pano redondo com 3 mastros não tenham enxárcias nos mastaréus dos joanetes, o “Cutty Sark” tem.

 

 

7-Mastro Grande Ante Ré.jpg

1 – Gávea Alta;

2 – Gávea Baixa;

3 – Paus de Cutelo da Gávea (BB e EB);

4 – Paus da Varredoura da Vela do Grande (BB e EB);

5 – Anel de fora do Pau de Cutelo da Gávea (EB);

6 – Anéis de dentro do Pau de Cutelo da Gávea (BB e EB);

7 – Anel de fora do Pau de Varredoura da Vela Grande (EB);

8 – Anel de dentro do Pau de Varredoura da Vela Grande (EB);

9 – Pau de Carga do Grande;

10 – Rizes;

11 – Enxárcia do Mastro Real do Grande;

12 – Enxárcia do Mastaréu da Gávea;

13 – Enxárcia do Mastaréu do Joanete Grande.

 

Também o

 

8 – Mastro da Mezena visto de Ante a Ré e Vela de Ré

 Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicado para cada um dos mastros.

 

apresenta alguns pormenores que permitem clarificar melhor alguns dos conceitos expressos.

Observando a vela da gata, também ela se encontra dividida em duas, a Vela da Gata Alta (1) e a Vela da Gata Baixa (2) que se encontram interligadas através de aparelhos de força (teques) que fazem fixe nos lais das vergas a BB e a EB. A gata baixa encontra-se ligada ao mastro com um galindréu de verga fixo, que lhe permite movimentos horizontais e a oscilação dos braços para cima e para baixo mas não uma deslocação vertical ao longo do mastro e a gata alta, além de ter os mesmos movimentos da gata baixa, tem também um movimento ascendente e descendente ao longo do mastro, o primeiro através de uma adriça e o segundo (folgando a adriça) através do aparelho de força que leva a verga da gata alta a descer em direção à verga da gata baixa.

Na Vela de Ré (3) destaca-se a Carangueja da Mezena (6), onde se pode ver o uso de correntes de elos metálicos (recurso usado quando se trata de peças de aparelhos com bastante peso e sujeitos a um grande esforço por ação do vento como o caso da adriça da verga grande) na Adriça do Lais de Pena da Mezena (8), na Adriça da Boca da Carangueja da Mezena (9) e na Adriça da Retranca (10). Ao contrário das adriças apresentadas em elos metálicos, a Adriça da Vela de Ré (12) e de cabo de manilha. Também se destaca o conjunto de 3 Carregadeiras de Latinos (11)

8-Mastro Mezena Antr Ré e Vela de Ré.jpg

1 – Vela da Gata Alta;

2 – Vela da Gata Baixa;

3 – Vela de Ré;

4 – Colhedores da Enxárcia do Mastaréu da Gata;

5 – Colhedores da Enxárcia do Mastaréu da Sobregata;

6 – Carangueja da Mezena;

7 – Brandais;

8 – Adriça do Lais de Pena da Carangueja da Mezena (corrente de elos);

9 – Adriça da Boca da Carangueja da Mezena (corrente de elos);

10 – Adriça da Retranca (corrente de elos);

11 – Carregadeiras de Latinos – Usados para diminuir a superfície exposta ao vento da Vela de Ré;

12 – Adriça da Vela de Ré.

 

Uma última abordagem no que diz respeito ao velame do “Cutty Sark” prende-se com as

 

9 – Velas Auxiliares do Traquete e do Grande vistas de Ante a Vante (Studding Sails) – 1

Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicado para cada um dos mastros.

 

que, como já vimos, são velas usadas como complemento das velas do conjunto Velacho de Baixo (2) e Velacho de Cima (3) e da vela do Joanete de Proa (4) do mastro do Traquete e do conjunto Gávea Baixa (7) e Gávea Alta (8) e da vela do Joanete Grande (9) e, eventualmente do Sobrejoanete Grande (10) do mastro Grande. O mastro da Mezena não tem velas auxiliares. (3)

Na fotografia seguinte estão identificadas todas as velas do Mastro do Traquete (1 a 5) e do Mastro Grande (6 a 11).

As velas de Varredoura que servem de complemento aos Papa-figos (Traquete Redondo e Vela Grande) são suportados por Paus de Varredoura (12), que são disparados fora da borda, sustentando uma vela, usualmente retangular (redonda). Na época do “Cutty Sark” estas velas tinha as esteiras amuradas a um Pau de Surriola (Sorriola) (Verga colocada horizontalmente nas amuras do bojo do navio, de ambos os bordos do mesmo, podendo ser disparada perpendicularmente ao navio para servir de amarração às embarcações miúdas, com o navio ancorado. É articulada por meio de um cachimbo e mangual no pé e mantida em posição de uso por meio de amantilho passado ao lais e um patarrás e um gaio que a movimentam para ré ou para vante, respetivamente. Possui uma escada de quebra-peito para acesso das pessoas da embarcação para o pau e andorinhos para amarração das embarcações. Possui ainda um cabo de vaivém para segurança do pessoal e uma alça para passar o cabo das pinhas que vai da bochecha do navio ao patim inferior da escada de portaló. Quando fora de uso, o pau de surriola prolonga-se para a ré, no costado. Antigamente servia também para amurar a varredoura). No caso do “Cutty Sark”, a Vela da Varredoura é triangular e o vértice inferior da mesma é aguentado para bordo por uma escota, o que dispensa o Pau de Surriola.

Os Paus de Cutelo do Velacho e da Gávea (13) embora digam respeito a velas duplas, só existem nas vergas de cima sendo uma só peça que abrange, em altura, simultaneamente as duas metades das velas.

Os Paus de Cutelo do Joanete de Proa e do Joanete Grande (14) também servem para aguentar velas de cutelo que vêm complementar a acção das velas a que estão adstritas.

Complementarmente, às vergas do Sobre de Proa e do Sobrejoanete Grande também podem ter acoplados Paus de Cutelinho (15) com os mesmos nomes das vergas e que servirão para envergar Velas de Cutelinho também com os mesmos nomes das vergas.

 

9-Velas Auxiliares 1.jpg

 Velas do Traquete

1 – Traquete Redondo;

2 – Velacho Baixo;

3 – Velacho Alto;

4 – Joanete de Proa;

5 – Sobre de Proa;

Velas do Grande

6 – Vela Grande;

7 – Gávea Baixa;

8 – Gávea Alta;

9 – Joanete Grande;

10 – Sobrejoanete Grande;

11 – Sobrejoanetinho Grande;

Paus de Suporte das Velas Auxiliares

12 – Paus de Varredoura;

13 – Paus de Cutelo;

14 – Paus de Cutelo;

15 – Paus de Cutelinho (usados eventualmente em alguns veleiros)

 

O modelo do “Cutty Sark” que se apresenta não tem as velas auxiliares envergadas, pela simples razão de que isso viria a tornar o modelo muito “cheio” e muito “pesado”, aumentando substancialmente a largura do modelo – quase para o dobro. No entanto as velas foram confecionadas e são as que se apresentam a seguir.

(3) Se não se considerar a “Saia da Vela” (Suplemento na esteira das velas latinas que se acrescenta quando se navega com tempo favorável) como uma vela auxiliar ou um acrescento possível de adaptar à valuma da vela de ré aumentando a área da mesma.

 

10 – Velas Auxiliares do Traquete e do Grande no “Cutty Sark” (Studding Sails) – 2

Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicado para cada um dos mastros.

 

Como foi dito anteriormente, as Velas de Varredoura (1, 4, 7 e 11) aparecem ligadas aos Papa-figos (Traquete Redondo e Vela Grande) do “Cutty Sark” e têm um desenho fora do habitual, com um formato triangular. (4)

Os Paus de Varredoura, de Cutelo e de Cutelinho, (na língua inglesa não existe esta distinção entre os vários paus – é tudo “studdingsails”) quando não estão em uso, encontram-se recolhidos na verga respetiva e seguros à mesma, deslizando dentro dos aros respetivos. Também as velas auxiliares se encontram, quando não estão em uso, no paiol das velas. Para serem usadas os paus respetivos têm de ser disparados e as velas envergadas a partir do convés, até ao seu local. (5)

As Velas de Cutelo aparecem ligadas aos Velachos de Baixo e de Cima (uma por cada bordo, 2 e 5) e também ao Joanete de Proa (uma por cada bordo, 3 e 6) do mastro do Traquete e aparecem ligadas à Gávea de Baixo e Gávea de Cima (uma por cada bordo, 8 e 12) e também ao Joanete Grande (uma por cada bordo, 9 e 13) do mastro Grande.

As Velas de Cutelinho aparecem ligadas ao Sobre Grande (uma por cada bordo, 10 e 14) do mastro Grande.

 

10-Velas Auxiliares 2.jpg

Este é o conjunto de velas que fiz para o modelo do “Cutty Sark”, que não foi montado pois, se fosse envergado, aumentava quase para o dobro a largura do modelo de lais a lais das vergas dos papa-figos mais os paus das varredouras.

Quando chegar à conclusão de como é que estas velas funcionam, vou tentar estivá-las no local certo se for um local visível.

 

1 – Vela de Varredoura do Traquete Redondo (EB);

2 – Vela de Cutelo do Velacho (EB);

3 – Vela de Cutelo do Joanete de Proa (EB);

4 – Vela de Varredoura do Traquete Redondo (BB);

5 – Vela de Cutelo do Velacho (BB);

6 – Vela de Cutelo do Joanete de Proa (BB);

7 – Vela de Varredoura do Grande (EB);

8 – Vela de Cutelo da Gávea (EB);

9 – Vela de Cutelo do Joanete Grande (EB);

10 – Vela de Cutelinho do Sobrejoanete Grande (EB);

11 – Vela de Varredoura do Grande (BB);

12 – Vela de Cutelo da Gávea (BB);

13 – Vela de Cutelo do Joanete Grande (BB);

14 – Vela de Cutelinho do Sobrejoanete Grande (BB).

 

(4) O fabrico de velas foi uma atividade principal em “Aberdeen” na Escócia a partir de 1800. Foi aqui que foi manufaturada a primeira andaina que equipou o “Cutty Sark”. De um artigo publicado no site sobre Aberdeen “Doric Columns”, transcrevo em tradução livre, a seguinte passagem:

“A forma das velas auxiliares (studdingsails ou stunsails ou st'n's'ls) de baixo (varredouras), depende principalmente da largura dos papa-figos que, se forem muito largos na sua extensão, precisam de velas auxiliares (varredouras) mais estreitas.

Para o seu funcionamento é necessário um pau (Pau de Surriola ou outro na ausência deste) montado do lado do pé com um mangual que encaixa num cachimbo seguro ao bojo do navio, e que deve ser estivado no convés, junto à amurada. Este pau poderá chegar a ter cerca de 15 m de comprimento e 12 pol de diâmetro, mas paus mais curtos são mais viáveis.

A existência deste pau pode ser eliminada se a Vela de Varredoura for triangular, melhor adaptada à forma do navio, como foi feito no caso do “Cutty Sark”, embora muitas pinturas modernas mostrem, erradamente, um pau com uma Vela de Varredoura retangular.

As velas auxiliares são colocadas em cada bordo das vergas do mastro do Traquete e do mastro Grande e, em raras ocasiões, na Vela da Gata da Mezena.

Com o vento de popa, as velas auxiliares podem ser envergadas em ambos os bordos, mas com as vergas braceadas, uma pequena quantidade das velas auxiliares do lado de sotavento são envergadas, até que as vergas estejam braceadas na mareação correta, quando serão recolhidas.

As velas auxiliares são estivadas verticalmente com amarrações, no interior dos ovéns superiores, quando forem usadas com frequência; caso contrário, nos suportes dos barcos auxiliares ou no teto das casas do convés.”

(5) Lendo vários manuais e outras obras sobre mareação, não consigo definir as regras (ou princípios) para o “como usar” e “quando usar” as velas auxiliares. As opiniões mais díspares aparecem duma forma avulsa, não enquadradas em qualquer teoria que possa ser analisada de uma forma sistemática. Autores existem que abordam o assunto pela rama em obras diferentes e que dizem que “sim mas também”. Os manuais das academias de marinha da altura também não são elucidativos. Será que o assunto não é importante? E quem terá razão?

De qualquer forma, não vou desistir de encontrar uma resposta para as minhas dúvidas – que não são existenciais.

 

11 - Içar e Arriar as Velas de Cutelo (auxiliares)

Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicado para cada um dos mastros.

 

Explicar um componente de um veleiro por quem e a quem domina mal a terminologia náutica, é uma tarefa árdua e muitas vezes infrutífera. Mas explicar aspetos da faina a bordo de uma forma compreensível é, pela mesma razão, quase tão difícil como subir o mastro grande até á borla.

As manobras com as Velas Auxiliares têm sido bastante debatidas e as opiniões pouco concordantes. Cada oficial e cada tripulação tem leituras próprias sobre este aspeto da faina a bordo.

Como é que se envergam e arreiam as Varredouras, os Cutelos e os Cutelinhos? Boa pergunta, como se costuma dizer! Vamos responder duma forma prática e pragmaticamente (Se era assim, não sabemos. O que é certo é que funciona!) vamos recorrer ao “saber de experiência feito” de “quem sabe da poda” - os profissionais que usam estas técnicas, embora não nos deem respostas “finais”

 

Içar Velas Auxiliares

A bordo do

Clipper “Stad Amsterdam”, Holanda

Numa manhã de domingo, 16 de setembro de 2012, a tripulação iça a vela de cutelo de BB do Joanete de Proa. De notar que o cutelo de BB do Velacho já se encontra envergado.

Aqui: https://youtu.be/eCX7a9Ry2tg

 

Arriar Velas Auxiliares

A bordo da

Barca “Picton Castle”, Canadá

Navio escola cujos tripulantes são formandos (devidamente enquadrados, claro) que, em viagens épicas de aventura, praticam uma enorme variedade de habilidades em navegação, incluindo manejo de vela, navegação, fabrico de velas, cordame, pequenos barcos e muito mais! Este vídeo mostra alguns de seus tripulantes praticando ajustes e manobras com velas auxiliares (ou st'n's'ls) em sua última passagem para a Ilha Pitcairn.

A manobra é a de arriar o cutelo de BB do Velacho

Aqui: https://youtu.be/YvhTCfMJc1E 

 

12 - Diferentes combinações das Velas Auxiliares 

Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicado para cada um dos mastros.

 

As situações de navegação ao longo de uma viagem e a mareação necessária em cada altura variam grandemente, não havendo duas situações iguais mas, quanto muito, parecidas. O uso das velas auxiliares depende muito do julgamento das condições de navegação feito pelo capitão do navio ou por quem estiver no comando do navio na altura. Por isso não existem regras fixas mas sim princípios possíveis de aplicar. Não vamos referir esses princípios que se encontram em diferentes manuais de navegação e noutras fontes mas sim apresentar visualmente algumas fontes iconográficas (pinturas e fotografias) que documentam algumas situações de uso de Velas Auxiliares.

 

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A Galera “Norman Court”

Pintura de John Richardson

 

O clipper “Norman Court”, com bandeira do Reino Unido, foi construído com base no sistema “composite” em 1869 em Glasgow, aparelhado como galera (em 1877 foi reaparelhado como barca) e manteve-se quase todo o tempo da sua existência como clipper do chá, tendo-se afundado em Cymyran Bay no País de Gales em 1883 devido a uma forte tempestade.

A pintura (6) de John Richardson apresenta o navio com Velas Auxiliares no mastro do Traquete com a particularidade de ter envergado, a BB e a EB as velas de Varredoura, os cutelos do Velacho, os cutelos do Joanete de Proa e, o que não era muito comum, o cutelinho do Sobre de Proa. Aparentemente o navio segue com vento de popa com uma força 6/7 (quase tempestade).

(6) – Naturalmente que uma fonte baseada numa pintura, mesmo da época, está sempre sujeita à interpretação da situação real que é feita pelo pintor. A representação de uma situação mais perigosa é sempre mais chamativa.

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A Barca “Europa”

 

A barca “Europa”, atualmente com bandeira Holandesa - originalmente era Alemã, com o nome de “Senator Brockes”, construída em Hamburgo em 1911 tendo estado ao serviço até 1977 e sido vendido a “Rderij Bark Europa” de Roterdão em 1985 – navega como navio escola para tripulações civis e tem dedicado muito do seu tempo a pesquisar e ensaiar o uso das velas auxiliares, com bastante sucesso.

Nesta fotografia, a barca tem envergadas, no Traquete, as Velas das Varredouras, dos cutelos do Velacho e dos cutelos do Joanete de Proa situação mais comum de observar. Não tem cutelinhos no Sobre de Proa. Tal como o navio anterior, desloca-se com fraco vento de popa (força 2).

 

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A Galera “Donald McKay"

Pintura de John Richardson

A galera “Donald McKay” foi construída em East Boston, USA, nos estaleiros de Donald McKay, famoso construtor naval norte-americano de ascendência escocesa, em 1855 para a “Black Ball Line” de Liverpool. Estava equipada com Gáveas duplas segundo a patente de Howes.

A sua atividade centrou-se em Liverpool tendo efetuado diversas viagens para a Austrália principalmente de transporte de fardos de lã. Foi vendida em 1879 e novamente em 1886 tendo estacionado na Madeira (Funchal) como depósito de carvão. Em 1888 ardeu e afundou-se.

O navio, nesta pintura, é apresentado envergando todas as velas Varredouras e os Cutelos, tanto do mastro do Traquete, como do Grande, com vento de força 6/7, vindo pela alheta de BB.

 

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Uma galera não identificada

 

Não consegui identificar este navio e não tenho nenhuma característica do mesmo a não ser que… é uma galera.

No entanto, figura aqui por duas razões. Uma primeira prende-se com o formato da varredoura que está envergada no traquete que não é nem retangular nem triangular mas sim trapezoidal, que é uma forma que deve ter sido bastante difundida como varredoura pois aparece bastantes vezes em ilustrações da época.

Uma segunda razão tem a ver com o uso de varredoura, e dois cutelos num único bordo do traquete (BB), o que atesta que as velas auxiliares são sempre usadas conforme as condições específicas que ocorrem nas viagens. Aqui, estamos perante um mar chão – um vento de força 1 / 2 (briza suave) – que deve vir da alheta de BB.

 

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A Galera “James Baines”

Pintura de John Richardson

O clipper/galera “James Baines” também foi construída em East Boston, USA, nos estaleiros de Donald McKay, para a “Black Ball Line” de Liverpool, em 1854. O navio foi construído totalmente em madeira, sem balizas em ferro – não “composite”.

Foi um navio projetado como misto – passageiros e carga – com 69m de comprimento (81m LOA), 13m de boca e um calado de 8,8m quando carregado. Transportava 700 passageiros e 1.400 t de carga e tinha um complemento de 100 tripulantes.

Era um navio grande e pesado (2.275 GRT) com 5 conveses e 3 mastros que envergavam, no máximo 43 velas (incluindo as auxiliares) – 16 velas redondas (num esquema de 5-5-5 que mais tarde passou a 5-6-5 pois, no mastro grande, foi acrescentado um mastaréu acima da vela do sobrinho onde envergava uma “orelha de mula” (Cada uma das velas triangulares envergadas por cima das últimas vergas, tendo o punho superior içado por gorne, junto à última encapeladura. Largavam-se uma no mastro do traquete, chamada mula-de-proa e outra no grande chamada mula-grande)). No entanto, gravuras da época mostram o navio com um esquema de velas de 4-5-4. Além das 16 velas redondas o navio envergava 6 velas de estai entre mastros, 4 velas latinas de proa, 1 vela de ré e 16 velas auxiliares. Todo este pano foi manufaturado por “Messrs. Porter, Mayhew & Co.” conceituados fabricantes de velas, de Boston, USA.

O “James Banes” manteve-se ao serviço só até 1858 (4 anos) pois incendiou-se no porto de Liverpool quando descarregava de uma viagem vindo da Índia, tendo ardido completamente até à linha de água.

O destroço foi convertido em barcaça de carvão, desconhecendo-se o seu destino final, embora se saiba que ainda constava do registo do porto de Liverpool em 1863.

A pintura de John Richardson representa o navio a navegar com a totalidade das velas auxiliares envergadas no mastro do traquete (8) e no mastro grande (8). O mar está agitado, perto do tempestuoso (força 6/7) o que milita a favor da tese de que o uso das velas auxiliares não dependia(e) muito de ventos fracos.(7)

(7) – A questão do “Quando” e do “Como” do uso das Velas Auxiliares quer no antigamente quer atualmente, merece um investigação mais profunda com a finalidade de construir uma teoria mais fundamentada sobre o assunto. Possivelmente já existe. Eu é que ainda não a encontrei!

(continua)

Um abraço e …

Bons Ventos

 

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