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Mar & Arte

Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

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17.09.19

48 - Modelismo Naval 7.24 - "Cutty Sark" - O Modelo 3.5


marearte

ib-04.1.jpg

 

(continuação)

Caros amigos

Nos últimos 3 Posts desta série sobre o modelo do “Cutty Sark” – o 48/3.5, 49/3.6 e 50/3.7, irei procurar identificar as diferentes partes do navio/modelo no que diz respeito aos 4 Mastros, incluindo o Gurupés, às diferentes Vergas, a algumas Velas que servirão de exemplo para a generalidade do velame do navio, aos diferentes Cabos de Laborar e Fixos e às suas funções, ao Poleame que serve para fixar os cabos fixos e facilitar as tarefas de mareação com os cabos de laborar, ao Aparelho de Suspender e Fundear, aos Meios de Salvamento que se encontram no navio e à forma de localizar os Cabos de Laborar – a sua Morada – o que vem facilitar a sua organização e consequente utilização.

É de chamar a atenção para que, na maioria dos casos, toda esta parafernália dos Grandes Veleiros maioritariamente de velas redondas com algumas latinas, existe em duplicado nos navios, tendo o mesmo nome mas distinguindo-se por Bombordo e por Estibordo.

 

Alguns pormenores do aparelho montado no modelo - I

(Mastros, Vergas, Velame, Massame e Poleame Surdo e de Laborar)

A nomenclatura que é usada para a designação de determinados componentes do navio é, a maior parte das vezes, extensível a qualquer componente igual localizado em bordos diferentes ou noutro local do mesmo  ou de outro navio semelhante.

 

Iniciando na proa do modelo um percurso ao longo do mesmo com base em fotografias – nestas fotografias estão identificados por números os diferentes componentes que pretendo caracterizar e o seu nome consta de uma lista que se encontra logo a seguir à fotografia – e indo no sentido da popa, encontramos em primeiro lugar o:

 

1 – Gurupés

Estais, Velas de Proa e Cabos de Laborar

Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicado para cada um dos mastros.

 

O Gurupés como já foi dito noutro post desta série, é na realidade um mastro formado por 3 secções – o “gurupés” propriamente dito, o “pau da bujarrona” e o “pau de giba” – embora especial, pois insere-se no navio com um ângulo que tem por volta de 35o em relação ao convés da proa. A sua principal função não é a de suportar as velas de proa mas sim a de suportar os estais que sustêm o conjunto dos outros mastros. Por sua vez o gurupés é suportado pelo casco do navio através de fortes correntes de elos e de cabos de arame de aço que tomam o nome de “patarrazes”, “cabrestos”, “contracabrestos” e “estais” diversos, ligados à parte inferior do gurupés no seu todo, e que fazem fixe no casco do navio.

Os Estais (1, 2, 3, 4, 5 e 6) são cabos fixos cuja função é a de sustentar no sentido proa-popa, os diferentes mastros do navio. São, modernamente, feitos de arame de aço, por vezes recoberto, mas eram normalmente feitos de manilha ou outra fibra vegetal e tinham uma bitola bastante elevada.

Havendo disponíveis suportes oblíquos (os estais) e também havendo a tendência do navio para “orçar” ou seja, aproximar a proa mais ou menos na direção do vento, devido ao efeito do vento nas velas por ante a ré do mastro grande, principalmente na vela (latina) de ré, alguns destes estais começaram também a ser usados para envergar neles velas latinas triangulares as chamadas Velas de Proa (7, 8 e 9) que permitem, contrariar esse efeito e facilitam as manobras de viragem, desatracação, recuo, etc. O estai 6 do modelo pode também envergar uma vela de mau tempo chamada Polaca.

Estas velas são manobradas por cabos de laborar que tomam o nome de Adriças (10) (Qualquer cabo singelo ou passado em aparelho de força, que serve para içar e/ou arriar vela, verga, bandeira ou sinal. Toma o nome da coisa que iça e/ou arreia: adriça do grande, adriça da boca da carangueja, etc. Var. driça), Carregadeiras (11) (Cabos que servem para abafar o pano nas velas latinas e nos cutelos. Tomam o nome das velas onde trabalham (1)) e Escotas (12) (Cabos de laborar que se prendem ao punho das velas – punho da escota – e que servem para caçar ou folgar os panos. Nas velas redondas há uma escota por bordo e nas velas latinas, apenas uma. As Velas de Proa e de Entre Mastros têm, para facilitar a manobra, uma escota com duas pernas: uma trabalha caçando o pano por sotavento enquanto a outra perna, de barlavento, vai folgada).

Todos os cabos de manobra existentes num navio são organizados (aduchados) em malaguetas que se encontram em Mesas de Malaguetas (13 e 14) (Nos navios de vela, pranchas em madeira dispostas horizontalmente por baixo das trincheiras, cavilhadas para o costado na direção das mesas das enxárcias, dotadas de uma série de furos onde enfurnam as malaguetas que recebem as voltas dos cabos de laborar. Há duas por mastro, uma por bordo, que tomam o nome do mastro a que servem, p.e. mesa das malaguetas de BB do Grande. Estas mesas de malaguetas também podem ser encontradas noutros pontos do navio onde seja necessário “arrumar” cabos suspensos de malaguetas.) e em Escoteiras (15) também chamadas Mesas das Papoulas e Bonecas (Nos navios de vela, armações de madeira aguentadas por duas travessas, colocadas no convés, por ante a ré de cada mastro, munidas de papoulas, bonecas e escoteiras, para passagem de cabos de manobra de velas e de vergas. O topo das armações são perfuradas para receberem malaguetas).

        

1-Bujarrona.jpg

 

1 – Estai do Sobre de Proa;

2 – Estai da Giba;

3 – Estai do Joanete de Proa

4 – Estai da Bujarrona;

5 – Estai do Velacho;

6 – Estai da Polaca;

7 – Giba;

8 – Bujarrona;

9 – Vela de Estai;

10 – Adriças;

11 – Carregadeiras;

12 – Escotas;

13 – Mesas de Malaguetas (morada das Escotas das 3 Velas de Estai de Proa, para Bombordo “BB” e Estibordo “EB”);

14 – Mesa de Malaguetas das Carregadeiras das Velas de Estai de Proa;

15 – Escoteira do Traquete (morada das Escotas das 5 Velas Redondas deste Mastro para BB e EB).

 

(1) – Em todo o navio, os cabos de manobra das velas, bem como as vergas onde elas estão envergadas, tomam o mesmo nome das velas respetivas. Os cabos de manobra distinguem-se por “BB” e por “EB” conforme os casos. Por exemplo: Verga do Velacho Alto; Escota do Velacho Alto de BB; Escota do Velacho Alto de EB.

 

Continuando no sentido da popa, o conjunto que se segue é o mastro do:

 

2 – Traquete

Velas Redondas, Cabos Fixos, Cabos de Laborar e Diversos

Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicado para cada um dos mastros.

 

O mastro do traquete como todos os outros encontra-se dividido em 3 partes a saber: Mastro Real do Traquete, Mastaréu do Velacho e Mastaréu do Joanete de Proa.

Este mastro enverga nas respetivas vergas as Velas (1, 2, 3, 4 e 5) que são orientadas em relação ao vento de forma a tirar o máximo de rendimento do mesmo através dos Braços (6) (Cabos aguentados no lais das vergas redondas e que servem para movê-las horizontalmente, aguentando-as para a ré. Cada verga tem dois) que se encontram ligados aos lais das respetivas vergas possibilitando manobrar as mesmas no sentido horizontal, levando o navio a dar o seu máximo rendimento consoante a força e direção do vento.

Os mastros são aguentados no sentido longitudinal (proa-popa) pelos estais como atrás ficou dito e no sentido transversal (BB-EB) pelos Ovéns (Cada um dos cabos que formam a enxárcia de um mastro real ou dos mastaréus de gávea e joanete) que no seu conjunto formam as Enxárcias (7) (Conjunto de cabos que aguentam os mastros reais para as bordas, os mastaréus de gávea para os cestos de gávea e os mastaréus de joanete para os vaus de joanete. São dispostos simetricamente para cada bordo. As enxárcias dos mastros reais e de gávea têm enfrechates, a dos joanete não têm) e pelos Brandais (8) que podem ser fixos e volantes (Qualquer cabo que aguenta o mastro para as bordas e que não integra as enxárcias. Toma o nome do mastro ou mastaréu onde trabalha). Estes cabos, ao encapelarem nos mastaréus do joanete, ficam muito juntos e, para a sua separação é usado um Espalhador de Cabos (9) (Qualquer peça do aparelho do navio usada para impedir que os cabos que trabalhem próximos se enrasquem).

Na união entre os mastros reais e os mastaréus da gávea respetivos existe uma plataforma chamada Cesto da Gávea (10) (Plataforma instalada no calcês do mastro dos antigos veleiros, para espalhar a enxárcia do mastaréu superior, para sustentar a marinhagem que trabalha na mastreação e para abrigar o gajeiro).

Parte da faina com as velas é feita com os marinheiros junto às vergas. Para este efeito existem na parte inferior das vergas cabos a todo o seu comprimento onde os marinheiros de serviço podem assentar os pés e executar a tarefa de, por exemplo, abafar e ferrar o pano ficando com as mãos livres para o efeito, cabos esses a que se dá o nome de Estribos das Vergas (11) (Cabo de arame ou de manilha, passado entre o terço e o lais da verga, destinado ao apoio dos pés dos marinheiros que trabalham na verga).

Na parte superior das vergas existem os Vergueiros Guarda-Mãos ou do Pano (12) (Delgado varão de metal, na parte superior das vergas redondas, enfiado em olhais ao longo da verga, servindo para nele se envergar o pano. Antes eram de cabo em vez de varão. O da verga do joanete é, geralmente, de cabo).

 

2-Traquete.jpg

 

1 – Sobrejoanete de Proa;

2 – Joanete de Proa;

3 – Velacho Alto;

4 – Velacho baixo;

5 – Traquete Redondo;

6 – Braços;

7 – Enxárcias (Ovéns);

8 – Brandais;

9 – Espalhador de Cabos (Brandais);

10 – Cesto da Gávea do Traquete;

11 – Estribos das Vergas;

12 – Vergueiros Guarda-Mãos ou do Pano.

 

O terceiro conjunto que nos aparece indo no mesmo sentido é o:

 

3 – Grande e Velas de Estai do Grande

Velas de Entre Mastros, Velas Redondas e Cabos de Laborar

Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicado para cada um dos mastros.

 

Entre o mastro do Traquete e o mastro Grande existem 4 Estais entre os dois mastros (e mais 1, que está fixo ao convés) que fazem o fixe para a proa nos quais, em 3 dos 4, estão envergadas as Velas de Estai ou de Entre Mastros do Grande (1, 2, e 3).

O mastro Grande, tal como o do Traquete que já vimos, é composto também por 3 partes a saber: o Mastro Real do Grande, o Mastaréu da Gávea e o Mastaréu do Joanete do Grande.

Este mastro enverga nas respetivas vergas as Velas (4, 5, 6, 7, 8 e 9).

Para a mareação e a manobra destas velas redondas, são também usados cabos de laborar com as seguintes designações: Escotas (10) (já caracterizadas anteriormente nas velas latinas de proa); Estingues (11) (Cada um dos cabos fixos nos punhos das escotas das velas redondas, que servem para colhê-las para os terços, como faina preliminar antes de ferrar o pano. Cada vela tem dois estingues, um por bordo, que podem ser singelos ou dobrados. Var: estinque, ostingue); Brióis (12) (Cada um dos cabos costurados na esteira das velas de papa-figos, gáveas e outras para carregar o pano de encontro às vergas. Os papa-figos têm quatro – por vezes têm 5 sendo o quinto situado bem a meio da esteira da vela – e as gáveas têm dois); Sergideiras/Apagas (13) (Cada um dos cabos fixos nas testas das gáveas para prolongá-las com o gurutil, na manobra de carregar pano. São, geralmente, duas, uma por testa, e fazem fixe no garruncho superior, passando depois nos gornes dos moitões cosidos na verga. Nos papa-figos tomam o nome particular de apagas. Var: sirgideira, cergideira, serzideira).

Nota. O “Cutty Sark” tem apagas na Vela Grande, no Joanete Grande e no Sobrinho Grande. As gáveas do navio – Velachos, Gáveas e Gatas – por serem dobradas, não usam estes cabos.

 

3-Grande e Velas de Estai.jpg

 

1 – Vela de Estai da Gávea Grande;

2 – Vela de Estai do Joanete Grande;

3 – Vela de Estai do Galope do Grande;

4 – Vela Grande;

5 – Gávea Baixa;

6 – Gávea Alta;

7 – Joanete Grande;

8 – Sobrejoanete Grande;

9 – Sobrinho Grande;

10 – Escotas;

11 – Estingues;

12 – Brióis;

13 – Sergideiras/Apagas.

 

Continuando no mesmo sentido segue-se o conjunto:

 

4 – Mezena e Velas de Estai da Mezena

Velas de Entre Mastros, Velas Redondas e Cabos de Laborar

Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicadospara cada um dos mastros.

 

Entre o mastro Grande e o mastro da Mezena existem 4 Estais entre os dois mastros (mais 1 que está fixo ao convés) que fazem o fixe para a proa nos quais, em 2 dos 4, estão envergadas as Velas de Estai ou de Entre Mastros da Mezena (1 e 2).

O mastro da Mezena, tal como os do Traquete e do Grande que já vimos, é composto também por 3 partes a saber: o Mastro Real da Mezena, o Mastaréu da Gata e o Mastaréu da Sobregata.

Este mastro enverga nas respetivas vergas as Velas (3, 4, 5, 6 e 7). A vela 7 (vela da Mezena), como já foi dito noutro post, normalmente não está envergada e quando está, também normalmente vai abafada ou ferrada (no entanto nada proíbe o uso desta vela a não ser a questão de se situar num ponto de “sombra” causado pela vela de ré).

Para a mareação e a manobra destas velas redondas são usados cabos de laborar com as seguintes designações: Braço (8) (já caracterizado anteriormente nas velas do Traquete), repetindo-se aqui só para reforçar que os braços das velas da Mezena trabalham ligados ao Mastro Grande pois não existe nenhum mastro por ante a ré do mastro da Mezena.

 

4-Mezena e Velas de Estai.jpg

 

1 – Vela de Estai do Sobre da Mezena;

2 – Vela de Estai da Mezena;

3 – Sobre da Mezena;

4 – Joanete da Mezena;

5 – Gávea Alta da Mezena;

6 – Gávea Baixa da Mezena;

7 – Mezena (normalmente não envergada);

8 – Braços (de todas as velas, que dão para o mastro grande).

 

O último grupo que encontramos que embora pertencendo ao mastro da Mezena tem características especiais, é o:

 

5 – Carangueja, Vela do Sobre e Vela do Joanete da Mezena

Com as Escotas e Estingues de Bombordo e Vela de Ré

 Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicado para cada um dos mastros.

 

A Vela de Ré (1), (Latino quadrangular do mastro de ré dos navios redondos de três mastros como a galera. Por vezes, é dado este nome ao latino quadrangular do mastro de mezena de alguns outros tipos de aparelho); que é uma vela de carangueja latina quadrangular, possui características diferentes que engloba também uma nomenclatura diferente. Fica situada ante a ré do mastro da Mezena e trabalha entre duas vergas a saber: a Carangueja da Mezena (2) (Verga que trabalha encostada por ante a ré dos mastros (neste caso, da Mezena) destinada a sustentar o gurutil de uma vela latina quadrangular); e a Retranca da Mezena (3) (Verga que serve para manter esticada a esteira de vela latina. Situa-se por ante a ré do mastro, com o qual se articula por meio de um galindréu ou mangual com cachimbo, podendo movimentar-se para ambos os bordos, para baixo e para cima).

Esta vela tem 4 lados que se chamam respetivamente Gurutil (10) (Lado superior das velas redondas e também das velas latinas quadrangulares que envergam em carangueja e lado de vante das velas latinas triangulares que envergam em estais. Neste caso é, por vezes chamado erroneamente de testa. Var: garotil); Esteira (11) (Lado inferior da vela. No grande latino é o lado que enverga na retranca); Testa (12) (Lado do pano latino quadrangular ou triangular que enverga no mastro ou no pau de frade – quando o mastro tem muita palha ou seja, é muito grosso) e Valuma (13) (Lado mais próximo da ré, de uma vela latina, entre o punho da escota e da pena ou o punho da escoda e da adriça no latino triangular: Tem a direção aproximadamente vertical. Var: baluma).

Os quatro vértices deste quadrilátero têm o nome de Punho da Pena (4) (Vértice do ângulo formado pelo Gurutil e pela Valuma); Punho da Boca (5) (Vértice do ângulo formado pelo Gurutil e pela Testa); Punho da Escota (6) (Vértice do ângulo formado pelo Valuma e pela Esteira e Punho da Amura (7) (Vértice do ângulo formado pela Esteira e pela Testa).

Voltando novamente aos cabos de laborar das velas redondas da Mezena podem-se ver na fotografia abaixo, dois desses cabos Escotas (14 e 16 a preto) e Estingues (15 e 17 a verde) e acompanhar o percurso que têm em direção à sua morada, as Escotas para a mesa de malaguetas situada por baixo da trincheira de BB e os Estingues para a mesa de malaguetas situada a BB do tombadilho do navio.

Por último, na Vela de Ré, as 3 Carregadeiras de Latinos (18) (Cabos de laborar passados por ante a ré da vela latina quadrangular que não seja de arriar) cuja função é a de abafar o pano – tal como os brióis, sergideiras, apagas e estingues o fazem no pano redondo – levando a valuma da vela ao encontro da testa da mesma (do lado do mastro) e obliquamente para baixo, para o lado da esteira, diminuindo a área da vela exposta ao vento. De cima para baixo, estas 3 carregadeiras tomam o nome de Carregadeira do Punho da Pena, Carregadeira da Valuma e Carregadeira do Punho da Escota.

 

 

5-Carangueja e Vela de Sobre e Vela de Joanete da Mezena_Escotas e Estingues.jpg

 

1 – Vela de Ré (vela de carangueja ou latina quadrangular);

2 – Carangueja da Mezena;

3 – Retranca da Mezena;

4 – Punho da Pena;

5 – Punho da Boca;

6 – Punho da Escota;

7 – Punho da Amura;

8 – Adriça;

9 – Escota;

10 – Gurutil;

11 – Esteira;

12 – Testa;

13 – Valuma;

14 – Escota do Sobre da Mezena de BB;

15 – Estingue do Sobre da Mezena de BB;

16 – Escota do Joanete da Mezena de BB;

17 – Estingue do Joanete da Mezena de BB;

18 – Carregadeiras de Latinos.

 

 

Alguns pormenores do aparelho montado no modelo - II

( Apontamentos sobre as Gáveas Partidas (duplas), os Aparelhos Fixo e de Laborar do Grande e da Mezena e Velas Auxiliares do Traquete e do Grande)

A nomenclatura que é usada para a designação de determinados componentes do navio é, a maior parte das vezes, extensível a qualquer componente igual localizado em bordos diferentes ou noutro local do mesmo navio ou de outro semelhante.

 

Continuando, vamos agora examinar o aparelho do modelo no que diz respeito ao:

 

6 – Mastro do Traquete (Velacho Alto e Velacho Baixo) e Mastro Grande (Gávea Alta e Gávea Baixa)

Em todas as velas, Latinas e Redondas, existem sempre os mesmos cabos de laborar, com a mesma localização e função, que não são indicados vela por vela para evitar a repetição. No entanto o conjunto de cabos de laborar é definido, partindo do princípio que todas as velas são manobradas com o conjunto de cabos indicado para cada um dos mastros.

 

As velas dos 3 mastros (o Traquete, Grande e Mezena) podem ser agrupadas em dois grandes grupos:

Velas Mestras (A, na fotografia 1 seguinte)

Papa-figos (as velas inferiores) que são:

Traquete Redondo, Grande e Mezena;

Gáveas (as velas acima dos Papa-figos) que são:

Velacho, Gávea e Gata.

 

Velas do Alto (B, na fotografia 1 seguinte)  

Joanetes (as velas acima das gáveas) que são:

Joanete de Proa, Joanete Grande e Sobregata;

Sobres (as velas que se encontram acima dos joanetes no mastaréu mais elevado) que são:

Sobre de Proa, Sobre Grande, Sobre Gatinha (e eventualmente, outras).

 

Gáveas Partidas Cutty Sark_1869.jpgFoto 1 - O “Cutty Sark” em 1912 com as velas do Velacho, Gávea e Gata divididas em duas partes – as de baixo e as de cima

Nota: Esta fotografia aparece na internet identificada como sendo o "Cutty Sark" em 1912. Partindo do princípio que  é mesmo o "Cutty Sark" e que a data está correta, então é o "Ferreira", a navegar sobre bandeira portuguesa pois o "Cutty Sark" foi vendido ao armador português de Lisboa, Joaquim Antunes Ferreira & Co., em 1895  tendo navegado para esta companhia até 1922, altura em que voltou para as mãos dos ingleses. Uma pequena precisão histórica!  Quem disponibilizou a fotografia deve ser inglês!

 

A – Velas Mestras – Papa-figos e Gáveas;

B – Velas do Alto – Joanetes e Sobres;

1 – Velacho de Baixo;

2 – Velacho de Cima;

3 – Gávea de Baixo;

4 – Gávea de Cima;

5 – Gata de Baixo;

6 – Gata de Cima.

 

Normalmente a Velas Mestras são confecionadas com lona grossa, pesada e as Velas do Alto com uma lona mais fina, leve, o que se compreende perfeitamente pois o adernamento do navio no seu seguimento seria muito maior se as velas do alto fossem de lona pesada.

Este peso acrescido levanta muitas dificuldades na faina (elevado dispêndio de energia e alta perigosidade para os marinheiros)  pois exige por vezes, um esforço sobre humano por parte da tripulação, principalmente em situações de borrasca quando o vento é mais intenso e as velas se encontram ensopadas em água.

Em 24 de maio de 1819, o “Savannah” (USA) iniciava a primeira travessia do Atlântico feita por um navio a vapor. O barco à vela equipado com motor levou quatro semanas para concluir a viagem entre os EUA e a Inglaterra.

Este acontecimento – que provou a viabilidade do barco a vapor – em conjunto com outros, levou a uma mudança radical na forma do transporte por mar: o aparecimento dos navios a vapor entrando em forte competição com os veleiros.

O transporte em veleiros comerciais começou a não ser rentável em comparação com os “steamers”. As tripulações eram difíceis de ser matriculadas pois cada vez mais rareavam nos portos marinheiros competentes e disponíveis para navegar em veleiros pois a maioria preferia uma vida a bordo menos cansativa, nos vapores. O elevado número de marinheiros necessários para a faina em navios com tanta exigência de manobra em comparação com os navios a vapor, tornava os custos elevados em relação à oferta da concorrência.

Esta foi a causa próxima para a introdução de modificações nos aparelhos dos navios. No entanto, já de longa data se tentava adaptar os aparelhos dos navios no sentido de tornar as manobras das velas (principalmente as das Velas do Alto) mais simples, mais rápidas e consequentemente menos perigosas para quem as executava: os marinheiros.

Na década de 1680 começaram a aparecer, em todas as velas mas principalmente nas Velas do Alto as forras de Rizes (10, na fotografia do modelo, a seguir) (Pedaços de cabos finos passados nos ilhoses das forras dos rizes e que servem para amarrar contra a verga o bolso que se forma ao colher um pano que é uma manobra que se pratica quando o vento aumenta de força. Rizar nos primeiros, nos segundos, etc. significa tomar rizes na primeira ou na segunda forra. As velas têm, normalmente no máximo, duas forras) que serviam para, por etapas, diminuir a superfície da vela exposta ao vento. E outras melhorias foram introduzidas ao longo de várias décadas.

Em meados do século XIX (c. 1850) as grandes, pesadas e complicadas velas dos navios, foram divididas em Velas de Cima (2, 4 e 6, na fotografia anterior e 1 e 3 na fotografia do modelo, a seguir) – superiores – e Velas de Baixo (1, 3 e 5, na fotografia anterior e 2 e 4 na fotografia do modelo, a seguir) – inferiores – que podem ser manobradas separadamente muito mais facilmente por tripulações menos numerosas.

 

A invenção deve-se a dois oficiais da marinha dos USA: comandante Robert Forbes e o capitão Frederic Howes. Eram duas versões concorrentes.

Em ambas as versões, a área velica da vela original permanece a mesma, dividida em duas. Existem duas vergas separadas Verga de Cima (Superior) e Verga de Baixo (Inferior) cada uma com a sua vela que podem ser manobradas individualmente em vez de se ter que suspender o peso da totalidade de uma única vela. Normalmente, a vela que é envergada na Verga de Cima, tem uma linha de rizes (10, na fotografia do modelo, a seguir).

A diferença que existe é que, na versão de Forbes (experimentada pela primeira vez em 1841 na escuna “Midas”) as duas vergas são fixas e na versão de Howes (experimentada pela primeira vez em 1853 na galera “Climax” um clipper construído sob a sua supervisão) a Verga de Cima é móvel, embora unida à de baixo por dois aparelhos de força (teques) (9, na fotografia do modelo, a seguir) que unem os lais das duas vergas e a Vela de Cima não tem estingues ao contrário da Vela de Baixo que os tem (8, na fotografia do modelo, a seguir) já que o que se move não é o pano mas sim a verga no sentido descendente e ascendente levando o pano a reboque.

A invenção de Howes foi patenteada e hoje é a que aparece integrada nos navios de vela ainda a navegar como p.e.a barca “Sagres”, ou restaurados como museus que é o caso do “Cutty Sark” que tem velas partidas em todas as gáveas – Velacho,  Gávea e Gata. O interessante é que muitas vezes este sistema, erradamente,  é designado como sendo de Forbes.

 

6-Mastros Traquete e Grande.jpgA “fotografia do modelo, a seguir” que é referida anteriormente é esta. São visíveis só a vela do velacho e da gávea. A vela da gata que está escondida, também é partida e funciona do mesmo modo que as outras duas.

 

1 – Velacho Alto;

2 – Velacho Baixo;

3 – Gávea Alta;

4 – Gávea Baixa;

5 – Escotas dos Velachos e das Gáveas;

6 – Escotas do Joanete de Proa;

7 – Escota do Joanete Grande;

8 – Estingues do Velacho de Baixo e da Gávea do Baixo;

9 – Teques de elevação às Vergas de Baixo do Velacho e da Gávea;

10 – Rizes.

 

 

Se o “Cutty Sark” tivesse sido construído antes de 1850, poderia ter tido este aspeto:

Gáveas Cutty Sark_1869.jpgFoto 2 - O “Cutty Sark” antes de 1853 (hipoteticamente, claro!)

Um aspeto que o “Cutty Sark” teria com as velas de Gávea “inteiras”, o que nunca aconteceu pois o navio foi construído em 1869, já após a generalização da introdução no aparelho de galera da inovação das velas partidas.

 

1 – Velacho;

2 – Gávea;

3 – Gata.

 

(continua)

Um abraço e …

Bons Ventos