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Mar & Arte

Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

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Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

19.06.19

39 - Modelismo Naval 7.15 - "Cutty Sark" 2.12


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Caros amigos

(continuação)

 

 “Cutty Sark” –  De volta a Casa – De 1922 até aos nossos dias

 

bandeira Inglesa (1).jpg

 

Capitão Wilfred Dowman

 

Enquanto se encontrava ancorado em Falmouth, (ancoragem de “Carrick Roads”), à espera de uma melhoria do tempo no Canal da Mancha, o “Maria do Amparo” foi observado pelo Capitão Wilfred Dowman, que morava em Trevissome, perto de Falmouth.

 

990px-Carrick_Roads_Panorama.jpgCarrick Roads (Dowr Carrek em Celta), que significa “Rocha de Ancoragem” é o estuário do rio Fal na costa sul da Cornualha na Inglaterra, Reino Unido. Liga o Canal da Mancha à zona sul do rio, perto de Falmouth.

 

O capitão Dowman sentiu uma forte atração por aquele navio em más condições que se avistava ancorado no meio da baía. De fato, o capitão-mestre aposentado estava plenamente convencido de que o navio de aparência degradada já fora o ilustre “Cutty Sark”. Ele lembrava-se daquela nave muito bem desde os tempos em que era aprendiz, 38 anos antes. Isso foi em 1894, quando serviu no "Hawkesdale", numa altura em que o capitão do “Cutty Sark”, Richard Woodget o havia ultrapassado e desaparecido no horizonte dentro do mesmo quarto de vigia. Nenhum marinheiro de qualquer navio gostava de ser passado por um outro navio de vela, pois isso deixava sempre um amargo de boca e constrangimento.

 

Mas ser ultrapassado pelo “Cuty Sark” não era nenhuma vergonha, e de qualquer maneira foi uma honra pertencer à mesma companhia que o mais rápido “clipper” do mundo. Naquele dia de 1894, quando o “Cutty Sark” passou pelo “Hawkesdale”, deixou uma marca indelével na memória de Wilfred Dowman.

 

Nesta data, em 1922, ele estava envolvido no treinamento de marinharia de navios à vela e a auxiliar rapazes que queriam fazer uma carreira no mar e quando o “Maria do Amparo” se encontrava em Hamburgo a descarregar mais um carregamento de sucata de ferro ido de Lisboa após ter deixado o ancoradouro de Carrick Roads, encetou negociações para a compra deste navio junto ao armador Silva, proprietário do navio na altura e dono da Companhia Nacional de Navegação de Portugal.

 

Karte_Hamburger_Hafen_1910.jpgPorto de Hamburgo em 1910 – fundado em 1189

 

Um negócio pouco claro mas um bom negócio?

 

Consta que, durante as negociações de venda, foi dito que o navio estava numa condição miserável em relação às suas condições de higiene, bem como à ausência de qualquer manutenção. Porcos viviam à solta sobre o convés, enquanto galinhas perambulavam dentro e fora dos galinheiros. As madeiras dos conveses estavam rachadas, esburacadas e secas, pois não viam óleo há muito tempo, e os metais dourados do navio, em vez de brilhantes, haviam sido pintados há muito tempo com tinta.

 

Mas “Mr. Silva”, que não tinha nenhuma ligação afetiva com o navio, deve ter sabido que, ao possuir um veleiro que era o orgulho da vela da “Red Ensign”, possuía um monumento de grande valor sentimental e de importância histórica para os ingleses.

 

John Bull 2.jpg

John Bull

 

Sendo um homem de negócios,”Mr. Silva” deve ter comprado o navio com a única intenção de revendê-lo a um comprador para o qual o navio representasse um valor sentimental elevado e, se fosse esse o caso, a aposta seria pedir um preço elevado. Não há registo do que “Mr. Silva” pagou a J & A Ferreira pelo “Ferreira”, mas no momento em que o “Maria do Amparo” deixou o ferro-velho em Hamburgo e voltou para Lisboa, o preço que “Mr. Silva” queria pelo ”Maria da Amparo” deve ter sido muito mais do que pagou por ele.

 

Em comparação com as £ 2,100 que o armador J & A Ferreira pagou a John Willis pelo “Cutty Sark” em 1895 - quando ele ainda era um navio aparelhado como galera, em condições razoavelmente boas - o preço do acordo alcançado entre Mr. Silva e Dowman, as £ 3,750, foi uma quantia impressionante. O fato de a inflação ter aumentado quase nada durante os anos que se passaram e de que o “Maria do Amparo” estava em péssima condição, não justificam um montante tão elevado.

 

Havia também a exigência do pagamento das taxas de reboque do navio pelo rebocador “Triton”, de Lisboa para Falmouth, bem como da passagem de volta para Lisboa dos marinheiros que tripularam o “Maria do Amparo” sob reboque.”

 

O texto anterior, a amarelo, é uma compilação livre de afirmações constantes de vários documentos avulsos ingleses que abordam a génese da transformação do “Cutty Sark” em monumento e museu nacional, em 1953.

 

Sem querer ser advogado de defesa do “Mr. Silva”, estas afirmações merecem alguma refutação:

1 – Quanto às condições do navio – a falta de higiene – apontando a existência de porcos e galinhas à solta no convés, tal parece pouco plausível já que se trata de um veleiro com faina intensa e a tripulação não deveria querer “empecilhos” à facilidade da faina. Que isso tenha acontecido uma ou outra vez, é possível, mas de uma forma muito pontual. A quem é que nunca fugiu uma galinha do galinheiro ou um porco da pocilga?

2 – A ausência de manutenção não tem cabimento pois o navio tinha acabado de sair de uma manutenção na doca seca de “Surrey Commercial Docks” no Tamisa, em Londres.

3 – É muito provável que as madeiras do navio não estivessem nas melhores condições pois nem sempre deve ter sido possível cuidar delas da melhor forma devido às condições do tempo.

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Zé Povinho

 

4 – Os metais do navio foram pintados com tinta! O tempo e o esforço gasto com o “lustrar” dos metais era precioso para a faina e o merecido descanso entre quartos. Sem dúvida que a melhor solução para a proteção desses metais terá sido o uso de tinta, pintando-os. Seria sempre possível recuperarem o seu aspeto original. O navio era de carga. Não se tratava de um “HMS” (His Majesty’s Service).

5 – “Mr. Silva” não tinha uma ligação afetiva ao navio – nem tinha de ter outra como armador que não fosse de natureza económica – e descobriu que o navio tinha para os ingleses um valor muito para além do seu valor físico – e ainda bem que não estava a dormir na forma. Nada que os “gentlemen” ingleses não tivessem feito a outros povos, nós incluídos.

6 – O armador J & A Ferreira pagou a John Willis (o primeiro proprietário do “Cutty Sark”) a importância de £ 2,100 em 1895 e o armador Mr. Silva recebeu de Dowman a importância de £ 3,750 em 1922. Um bom negócio? Para qual dos dois?

7- Mr. Silva exigiu o pagamento das taxas do frete do reboque do “Maria do Amparo” de Lisboa para Falmouth, bem como a passagem de regresso a Lisboa da tripulação que acompanhou o navio. Qual o espanto?

 

O Caso do(s) sino(s) do “Cutty Sark”

 

Este é outro assunto controverso e que gerou polémica na altura – o roubo do sino do “Cutty Sark”.

Originalmente, o “Cutty Sark” quando da sua construção, foi provido de dois sinos para sinais de aviso:

 

  • Um primeiro, mais pequeno – Sino da Bitácula – situado junto à bitácula do navio por ante a vante da roda do leme, onde eram batidas as horas (as horas certas com batidas dobradas e as meias horas com batidas singelas) e também como sinal de nevoeiro, de alarme e de emergência.

Este sino assinalava, por exemplo e em regra, os “quartos” de serviço, períodos de tempo de quatro horas (normalmente) em que uma equipa ficava encarregada dos serviços a bordo, contados a partir das 00:00. Embora hoje em dia a denominação dos quartos por um nome particular tenha caído em desuso, na altura as designações usadas eram:

00:00/04:00 – Quarto da Modorra ou Domorna;

04:00/08:00 – Quarto da Alva;

08:00/12:00 – Quarto das Emendas;

12:00/16:00 – Quarto da Tarde;

16:00/20:00 – Quarto da Tardinha;

20:00/24:00 – Quarto da Prima.

 

Sino da bitácula (popa) – pequeno sino, com cabo pendente chamado “corda”, que serve para bater as horas e meias horas e eventualmente como sinal de nevoeiro, de alarme e de emergência.

 

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Em 1924, o capitão Richard Woodget com 79 anos de idade, toca no sino da bitácula colocada por ante a vante da roda do leme do “Cutty Sark”

 

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O Sino da bitácula do “Cutty Sark” não se encontra hoje no seu local junto à bitácula, onde se podia observar (como na fotografia a P/B do Capitão Richard Woodget de 1924). Atualmente encontra-se em exposição, em conjunto com vários instrumentos do “Cutty Sark”, no segundo convés do navio, em Greenwich.

 

  • Um segundo, de tamanho médio – Sino da Âncora – situado no castelo de proa que servia para assinalar o número de “quarteladas” (1/4 do comprimento total da amarra) da amarra que estavam fora e também como sinal de nevoeiro.

 

Sino de âncora (proa) – Sino no castelo de proa que se bate durante o nevoeiro e para indicar o número de quarteladas – um quarto do comprimento total da amarra – que estão fora e como aviso noutras situações

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O Sino da âncora do “Cutty Sark” em 1970 e…

 

Z114.png

… o Sino da âncora do “Cutty Sark” em 2000.

Nenhum dos dois sinos é o original.

 

sino.gifO atual Sino da âncora que se encontra no “Cutty Sark” em Greenwich.

 

Mas de qual sino se trata?

 

A vinheta de identificação do Sino da Bitácula que se encontra em exposição no “Cutty Sark”, tem o seguinte texto:

This bell was stolen around 1903 when the ship was under the Portuguese flag by an officer who had once served on "Cutty Sark". The Portuguese crew then stole the bell of the nearest vessel, the barque "Shakespeare". When "Cutty Sark" was bought by Captain Dowman in 1922, the culprit offered the original bell back, taking "Shakespeare's" bell in exchange.”

 

“Este sino foi roubado por volta de 1903, quando o navio estava sob a bandeira portuguesa, por um oficial que já havia servido no "Cutty Sark". A tripulação portuguesa roubou então o sino da embarcação mais próxima, a barca "Shakespeare". Quando "Cutty Sark" foi comprado pelo Capitão Dowman em 1922, o culpado ofereceu o sino original de volta, ficando com o sino do "Shakespeare" em troca.”

 

Esta vinheta de identificação do Sino da Bitácula do “Cutty Sark” tem três informações que parece não estarem corretas:

  1. A primeira diz respeito à data em que o sino do “Cutty Sark” foi roubado. Todos os textos que conheço que se referem a este “incidente” referem que o mesmo teve lugar em 1913 e não em 1903.

 

  1. A segunda diz respeito a quem substituiu o sino roubado pelo sino da barca “Shakespeare”. Parece que não foi a tripulação portuguesa que o fez! Todos os textos que conheço (em particular o livro “The Cutty Sark Story”), foi o próprio “ladrão honesto” que o fez.

 

  1. A terceira “imprecisão” diz respeito ao objeto do roubo. Segundo este texto o sino que foi roubado foi o sino da bitácula. Todos os textos que conheço que se referem a este “incidente” referem que o sino roubado foi o Sino da Âncora e não o Sino da Bitácula como é reconhecido pelo próprio oficial no livro “The Cutty Sark Story”

 

Algumas das Fontes

1

Aparentemente, quando o "Ferreira" estava em New Orleans, em 1913, sendo da propriedade de J & A Ferreira, um marinheiro britânico visitante que reconheceu o "Ferreira" como sendo o antigo "Cutty Sark", decidiu remover a o sino do castelo de proa para seu ganho pessoal (uma forma eufemística para “roubar”). Sem dúvida, o ladrão esperou até a hora mais apropriada, depois de ter trazido um sino de prata pintada, vistoso e parecido, tendo substituído o original? e durante os dez anos seguintes ninguém soube desta “troca”.

A substituição do sino passou completamente despercebida, e o roubo só foi descoberto dez anos depois, uma vez que o ganancioso Mr. da Silva, o atual dono, quis vender o que achava ser o verdadeiro sino da nave a “Denny Bros & Co”, que havia terminado a construção do navio em 1869. Aparentemente, o pedido de Mr. da Silva de £ 500 pelo sino foi rejeitado como sendo muito elevado. E logo depois, o sino genuíno foi devolvido ao navio depois que o capitão Dowman assumiu sua propriedade. Mais do que provavelmente, a pessoa que roubou o sino do "Ferreira" o fez com toda a honestidade." (estes ingleses!).

Adaptação livre de um capítulo do livro “The Cutty Sark Story”.

 

 2

“Passeando calmamente à beira-mar de New Orleans, notei os altos e finos mastaréus de um veleiro que sobressaíam por detrás de um velho armazém …

… Embora destituído da antiga glória, havia sobre ele, a marca inconfundível de um aristocrata, …

… Flutuando preguiçosamente com o escudo da nobre casa de Bragança …

… Pensando em que navio poderia ser, eu passei admirando … suas linhas graciosas…

… Ele tinha uma bela popa que estava decorada no seu balcão, em letras amarelas de seis polegadas, com o seu nome e porto de registo - Ferreira Lisboa.

… Como figura de proa, tinha uma bela donzela com um peito inchado, abundantemente pintada com tinta multicolorida, a mão estendida apontando para a frente…

… Decidi subir a bordo e olhei em volta para ver se havia alguém a quem pedir permissão; no entanto, toda a gente na vizinhança parecia estar aproveitando a sua sesta…

… fiz o meu caminho lentamente para trás e subi para o convés de popa…

… Avançando para o indivíduo que estava a trabalhar na vela da gávea, ele não parecia nem um pouco perturbado pela minha presença. Perguntei-lhe: "Você fala inglês?" Ele olhou para cima e sacudiu a cabeça. "Você é um oficial?" Perguntei. Veio a resposta, "No sabe". Mais uma vez perguntei. "Onde está o capitão?". A resposta surpreendeu-me um pouco "Eu capitão”… “

(A tripulação portuguesa (comandante incluído) não sabia falar inglês! Crime de lesa-majestade!  

Segue-se uma discrição (exaustiva e “chata”) das várias partes do navio, chamando sempre a atenção para o desleixo na sua conservação).

“ … Continuando para a frente através do segundo convés, que continha a coleção usual de velhos blocos e de fios enferrujados, cheguei à escotilha frontal …

… Subindo a escada, cheguei ao alto do castelo de proa, um lugar bastante vazio cercado por vários postes enferrujados com um fio de arame passando por eles …

… Descendo do castelo de proa algo chamou a minha atenção. Sozinho, numa solidão patética, suspenso por um solitário golfinho de ferro fundido, estava o sino da proa; com certeza que pensei que isso me daria uma pista sobre o nome do navio. Subi e examinei o sino de perto; a sua superfície à primeira vista parecia perfeitamente lisa e espessamente revestida com tinta prateada. No começo, imaginei que podia distinguir um leve indício de letras. Peguei uma faca de bolso e, raspando gentilmente, revelou a data de 1869. Hesitei em não ousar mutilar ainda mais algum trabalho artístico português, depois pensei que poderia muito bem continuar a aplicar minha faca. Mais alguns golpes com a lâmina, e ali, desafiante, havia um nome que já foi uma referência entre os marinheiros. Na verdade, isso me causou uma sensação de emoção, uma emoção que o nome "Mauritânia" ou "Lusitânia" nunca poderiam criar – o nome era "Cutty Sark". Toquei o velho sino gentilmente com a minha faca e ouvi novamente o som suave que, através dos oceanos, dos trópicos e dos rugidos do vento do paralelo dos 40o, tinha-me durante meio século, marcada tanto na escuridão quanto nas horas ensolaradas … “

A passagem anterior foi condensada de "The China Clippers", de Brown Son & Fergunson, escrito por Basil Lubbock. Durante este tempo o capitão Megano estava no comando do “Ferreira”, enquanto Frederico Vicente de Sousa era seu primeiro-oficial. Este capítulo, registado em Maio de 1913, é narrado por um oficial de convés da marinha mercante britânica, um homem que durante um passeio de domingo ao longo do cais de New Orleans, encontrou, por mero acaso o “Ferreira”/”Cutty Sark”.

9780712603416-uk-300.jpgEdição e.book

 

Concluindo

Pela narrativa do próprio ladrão (honesto, na opinião do autor) e pelos dados que aparecem em diversos textos – “The Cutty Sark Story” por exemplo – o roubo foi efetuado em 1913 e o sino roubado foi o Sino da Âncora, que se situa no convés de proa e a sua substituição pelo sino da barca “Shakespeare” foi feita pelo próprio ladrão.

 

(continua)

 

Um abraço e …

Bons Ventos

 

 

 

 

 

 

 

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