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Mar & Arte

Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

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Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

26.07.19

46 - Modelismo Naval 7.22 - "Cutty Sark" O Modelo 3.3


marearte

ib-04.1.jpg

 

(continuação)

Caros amigos

 

Os mastros do navio

 

O mastro Grande

CS-17.jpg

 

O “mastro grande” é composto, de baixo para cima, por “mastro real do grande, “mastaréu da gávea do grande” e “mastaréu do joanete do grande”.

 

A partir do convés, este mastro tem as seguintes vergas e enverga as seguintes velas:

 

  • Uma vela chamada “vela do grande” (também chamada “vela do papa-figo(1), que enverga na “verga do grande”. Ao mesmo nível do mastro onde se encontra abraçada a “verga do grande”, projeta-se no sentido da popa uma verga “carangueja do grande”. A função desta verga no “Cutty Sark” é funcionar exclusivamente como “pau de carga”. Noutros navios, poderá ser envergada uma vela latina quadrangular (“vela de carangueja”) chamada “grande latino” cuja esteira (lado inferior da vela) enverga na “retranca do grande latino” (verga), que não existe no “Cutty Sark”;

 

(1) - papa-figo” é o nome dado. na generalidade, às vergas e velas principais (as mais em baixo) de qualquer um dos mastros. No entanto, é usado principalmente em referência à “vela do grande”.

 

  • Seguem-se duas vergas que faziam parte da mesma vela mas que foi partida em duas a exemplo do que foi dito a este respeito para a vela da gata do mastro da gata. Assim, a “vela da gávea” foi desdobrada, passando a ter a “verga da gávea baixa” que enverga a “vela da gávea baixa” e a “verga da gávea alta” que enverga a “vela da gávea alta”;

 

  • No seguimento: Temos a “verga do joanete do grande” com a “vela do joanete do grande”, depois a “verga do sobrejoanete do grande” com a “vela do sobrejoanete do grande” e em última a “verga do sobrinho do grande” com a “vela do sobrinho do grande”.

 

Como velas entre mastros que envergam em estais entre o grande e o traquete, e levando em conta o que atrás foi dito sobre o número de velas de estai possíveis de envergar, temos as seguintes:

 

  • A “vela de estai do grande” no estai que sai do “mastaréu da gávea” para o “convés”;

 

  • A “vela de estai da gávea” no estai que sai do “mastaréu do joanete do grande” para o “mastaréu do velacho”;

 

  • A “vela de estai do sobre do grande” no estai que sai do “mastaréu do joanete do grande” para o “mastaréu do joanete de proa”.

 

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Velas auxiliares – (standing sails, stunsails, stun’sls, studsails)

 

Além das velas atrás referenciadas para o mastro grande existem, para este mastro e para o “mastro do traquete”, velas auxiliares que tomam o nome de “velas de cutelo” que podem ser envergadas em “paus de cutelo”, que se encontram recolhidos por cima dos braços das vergas encaixados entre dois aros – o “aro de dentro” e o “aro de fora” e que disparam a partir do lais das vergas deslizando para fora entre os dois aros, possibilitando assim o aumento da área velica envergando outras velas.

Este aumento da área velica contribuía sem dúvida para o aumento da velocidade dos navios e o uso destas velas auxiliares teve o seu tempo áureo durante a época dos “clippers do chá” em que o menor tempo de viagem entre a China e a Inglaterra representava um melhor preço para as folhas de chá.

Quando a procura de veleiros se tornou diminuta a favor do uso de “steamers”, os navios á vela viram-se obrigados a diminuir o número de tripulantes, e o uso de velas auxiliares, em consequência, foi sendo diminuído até ao ponto de serem raros os veleiros que as usavam.

Hoje, ao tentar recuperar esse uso nos poucos grandes veleiros ainda existentes (ou reconstruídos ou novos) as diferentes tripulações adotam diferentes técnicas de manobra, não sendo pacificas as respostas dadas ao “quando usar?” e ao “como usar?”.

 

Cutelos.jpg

Diagrama das velas auxiliares e respetivos paus normalmente usados nos mastros do grande e no traquete, uma por cada bordo.

A – Pau do Cutelinho;

A1 – Cutelinho (BB-EB).

B – Pau do Cutelo;

B1 – Cutelo (BB-EB).

 Mesmo no caso da vela da Gávea ser dupla, o Cutelo é um único, abrangendo as Gáveas Alta e Baixa. O mesmo é válido no caso da Vela do Joanete também ser dupla, o Cutelinho também é um único, abrangendo os Joanetes Alto e Baixo.

C – Pau da Varredoura;

C1 – Varredoura.

 

O formato normalmente adotado para estas velas é o mesmo que se encontra no desenho, com raras exceções. Uma dessas exceções é, por exemplo, a das varredouras do traquete do “Cutty Sark” cujo formato é o de um triângulo invertido, suspenso pela base, envergado no pau da varredoura.

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O “Cutty Sark” podia envergar velas auxiliares no mastro grande pois estava dotado de “paus” que são visíveis no modelo, montados a bombordo e a estibordo na “verga da vela grande” – “paus da varredoura da vela grande” e “velas da varredoura da grande”, na “verga da gávea alta” – “paus de cutelo da gávea” e “velas de cutelo da gávea” (abrangendo esta única vela de cutelo a “vela da gávea alta” e a “vela da gávea baixa”) e na “verga do joanete do grande” – “paus de cutelinho do joanete grande” e “velas de cutelinho do joanete grande”.

 

Nota: No modelo que se apresenta só figuram os “paus de cutelo” tanto do mastro grande como do traquete, tendo-se optado por não representar as velas auxiliares respetivas a fim de não tornar o modelo muito “pesado”. Até porque são velas que, embora fazendo parte da andaina do navio não se encontram, em princípio, sempre envergadas.

 

O mastro do Traquete e o Gurupés

CS-18.jpg

 

O “mastro do traquete” é composto, de baixo para cima, por “mastro real do traquete, “mastaréu do velacho” e “mastaréu do joanete de proa”.

 

A partir do convés, este mastro tem as seguintes vergas e enverga as seguintes velas:

 

  • Uma verga, a “verga mestra do traquete, ou verga do traquete redondo” que enverga a “vela mestra do traquete ou vela do traquete redondo”;

 

  • Duas vergas que resultam da divisão (c. 1850 e pelas mesmas razões, que atrás foram referidas), da antiga “vela da gávea do traquete ou vela do velacho”) em duas, que tomaram o nome de “verga do traquete baixa (velacho baixo)” e “verga do traquete alta (velacho alto)“ que envergam respetivamente a “vela do traquete baixa (velacho baixo)” e a “vela do traquete alta (velacho alto)“;

 

  • Segue-se uma verga, a “verga do joanete de proa” que enverga a “vela do joanete de proa”;

 

  • Por último, temos a “verga do sobrejoanete (sobre) de proa” que enverga a “vela do sobrejoanete (sobre) de proa”.

 

O “gurupés” que, embora se insira no navio com um ângulo aproximado de 35o é considerado como mastro e é formado pelo “gurupés” (mastro) propriamente dito que espiga diretamente do convés, seguindo-se, por ante-avante, o “pau da bujarrona” (mastaréu) e o “pau da giba” (mastaréu), que estão referenciados no diagrama seguinte.

É amarrado para baixo, de encontro à roda de proa e às bochechas das amuras por “cabrestos”, “contra-cabresto” e “correntes” que lhe dão maior robustez para aguentar a armação dos mastros, são compostos por correntes de elos e estão referenciados no diagrama seguinte por linhas ponteadas mais estreitas.

Os dois “patarrazes” que sustentam o gurupés e o “pau de pica-peixe (2) que também são feitos de correntes de elos estão referenciados no diagrama com um ponteado mais grosso.

(2) – Pau situado junto a pega do gurupés, no sentido vertical para baixo, servindo para aguentar para baixo, o pau de bujarrona e o pau de giba, através dos estais que partem destes, passam pelo lais do pica-peixe e vão fazer fixo na roda de proa.

gurupés.jpgDiagrama de um Gurupés

 

A “vela de giba”, a “vela da bujarrona” e a “vela de estai” fazem parte das velas de proa da andaina normal do “Cutty Sark”. A função principal deste conjunto de velas de proa é a de compensar, nos navios de vela redonda, a tendência para a “orça” ou seja, a tendência para o navio aproximar a proa da direção de onde sopra o vento provocada pela vela de ré, e não suficientemente compensada pela vela do traquete (proa). Daí, o aparecimento de um conjunto de velas latinas, aproveitando os suportes já existentes – os estais de proa – que vieram contribuir para conferir um melhor equilíbrio ao navio, em função da mareação do restante pano e da marcação do vento relativo. Alem de também contribuírem para uma maior velocidade já que, ao contrario da vela de cevadeira e sobrecevadeira – que começaram a desaparecer em medos do século XVIII (mantendo-se as vergas com função de “espalha-cabos”) e que tendiam a “afundar” a proa dos navios – faziam-na subir, rasgando mais facilmente as águas .

 

Suporta com 6 estais o mastro do traquete (mais corretamente, suporta e é suportado pelo mastro do traquete) e, no caso do “Cutty Sark”, cinco deles poderão envergar velas latinas triangulares, a saber (contando do lais do pau da giba em direção ao convés):

 

  • O primeiro estai que sai do topo do mastro do traquete acima da vela do “sobre de proa” e faz fixe no lais do “pau da giba” do “gurupés” e que se chama estai do sobre de proapoderá envergar, lá no alto, ao nível da verga do joanete de proa, uma vela latina que toma o nome de “vela de estai alta”. No entanto, a sua principal função é contribuir para a solidez do aparelho fixo. Essa vela não era usada frequentemente no “Cutty Sark” e não está representada no modelo (a vermelho no diagrama);

 

  • Descendo o mastro do traquete temos um segundo estai, o “estai da giba” que nasce por cima da verga do joanete de proa no traquete e faz fixe no mesmo local de amarração do anterior – lais do “pau da giba”. Este estai enverga a “vela da giba” (a preto no diagrama);

 

 

  • Segue-se um terceiro estai que no “Cutty Sark” não enverga normalmente qualquer vela de proa e que funciona como reforço à sustentação do arvoredo do navio (a vermelho no diagrama);

 

  • O estai seguinte, o quarto, que toma o nome de “estai da bujarrona”, nasce no mastro do traquete por cima da “verga do velacho alto” e vem amarrar no início do mastaréu da bujarrona, junto ao estai livre anterior. Enverga, por sua vez, a “vela da bujarrona” (a preto grosso no diagrama);

 

  • O quinto estai, o “estai do velacho” que enverga a “vela de estai”, nasce também no mastro do traquete por cima da “verga do velacho alto” e faz fixe no início do gurupés, na “pega do gurupés”, por cima do “pau de pica-peixe” Estas 3 velas eram envergadas normalmente pelo “Cutty Sark” (a preto grosso no diagrama);

 

  • Um sexto estai, que sai do cesto da gávea do traquete e tem fixe na inserção da “mecha do gurupés” com o convés, o “estai da polaca” que, em alguns navios, em condições de mau tempo, poderá envergar uma vela de estai com o nome de “polaca” (a vermelho grosso no diagrama).

A bitola dos cabos dos três últimos estais é superior à dos três primeiros e todos são entrançados em arame de ferro.

 

Nanee.jpgPormenor do Gurupés com destaque para a figura de proa que representa a jovem bruxa Nannie Dee que desafiou o escocês Tam o’Shanter.

Weel done cutty-sark!”

 

Três vistas a partir da popa

 

CS-19.jpgO Espelho de popa com o baixo-relevo dourado que existe no modelo que é uma cópia do original. O que hoje existe é diferente.

 

 

CS-20.jpgO tombadilho dos oficiais. O lado do bombordo do tombadilho era “religiosamente” reservado para o capitão, mesmo quando ele não estava presente. Era daqui que ele governava o navio.

 

 

CS-21.jpgO navio visto do posto do timoneiro que manobrava a roda do leme de costas para a popa e, normalmente, do lado de bombordo que era o mesmo do capitão. De notar que, em situação de bom tempo e de confiança, muitas das manobras eram dirigidas pelo 1º oficial e que muitos timoneiros experientes antecipavam muitas vezes essas manobras.

 

 

Duas visões do navio por um “albatroz” planando contra o vento

 

CS-22.jpg

Uma visão da imponência do navio.

CS-23.jpgUma visão corrida do convés pela amura de estibordo

 

Defesa contra o “taredo”

 

Taredo, Teredo, ou Gusano  (Teredo sp.), é um molusco bivalve da família dos teredinídeos. Apresenta aspeto vermiforme semelhante a uma minhoca, tendo numa das extremidades valvas com sulcos providos de dentes, os quais são utilizados para abrir galerias em madeiras submersas, formando aí as suas colónias, sendo o principal responsável pela ruína dos cascos dos navios de madeira não protegidos.

 

CS-15.jpgAs placas de cobertura em cobre, na popa e no leme do navio (bombordo)

 

CS-24.jpgAs placas em cobre de cobertura do casco, na proa e na meia-nau do navio (estibordo)

 

As placas de cobre – que, além de protegerem do taredo também dificultavam a presença de flora e fauna marítimas presas ao casco – só começaram a ser aplicadas nas obras-vivas de navios em madeira em 1761 (CHATTERTON, “Sailing Ships”), o que veio aumentar em muito a duração dos cascos que até essa altura eram protegidos com breu (o caso dos navios das descobertas dos séculos XV e XVI) e depois com chapas de chumbo – o que se revelou contribuir para um maior desgaste das ferragens do leme pelas fortes correntes galvânicas que eram induzidas por este elemento. Posteriormente, com a descoberta de uma espécie de  latão (1832, metal de Muntz - 60% Cu, 40% Zn com vestígios de ferro) o cobre, material caro, foi substituído, tornando esta proteção muito mais barata. É o caso do “Cutty Sark” atual que se encontra em Greenwich.

 

(continua)

 

Um abraço e …

Bons Ventos