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Mar & Arte

Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

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12.07.19

44 - Modelismo Naval 7.20 - "Cutty Sark" O Modelo 3.1


marearte

ib-04.1.jpg

 

(continuação)

 

Caros amigos

Bandeira Portugal.gif

 

O Modelo do "Cutty Sark"

Terminada que foi no post anterior a história do "Cutty Sark" falta agora, para cumprir o que estava planeado desde o início, apresentar o modelo que construí ao longo de aproximadamente 3 anos. Com o material que consegui reunir, penso ficarem bem documentadas as aproximadamente 2000 horas de trabalho que irei abordar nos 3 próximos posts, este incluído.

 

Scanner_20170802 (12).pngEu, “marinheiro de sequeiro” e o “Cutty Sark” – Greenwich – London – 1994

 

Honestamente, não sei qual a data que deva considerar como a do início da construção do meu modelo do “Cutty Sark”. Se a data em que iniciei a manufatura e montagem da quilha e das balizas em 2014 se a data do meu primeiro contato físico com o “clipper” em 1994, data essa que é também a da compra dos planos de construção da “Billing Boats”. Vou mais pela data deste meu primeiro contato com o “Cutty Sark”, já que foi nessa altura que iniciei o meu estudo sobre o navio.

Mais tarde fui procurando materiais e apetrechos para a construção que fui juntando e não construindo pois na altura o meu tempo livre era menos do que nada. Era trabalho e mais trabalho e o resto eram sonhos.

Mas chegou a altura, já em 2013, liberto de todos os compromissos para com os outros, que arranjei tempo e paciência para iniciar a manufatura do modelo, não sem antes ter dedicado perto de um ano (intermitentemente) a pesquisar sobre o período do transporte do chá e dos seus “clippers”, a estudar os métodos de construção naval usados na época bem como as técnicas e a terminologia ligadas à navegação em grandes veleiros, principalmente ingleses e norte americanos.

Reunidos todos os elementos, quer materiais quer de conhecimento, iniciei a construção do modelo entusiasticamente, de tal forma que me esqueci de documentar fotograficamente as diferentes fases da construção até ao modelo ganhar uma forma, aparentemente quase definitiva, que apresento como 1ª fotografia que documenta a evolução da construção.

 

CS-0.JPGA 1ª fotografia que documenta o aspeto do modelo na altura em que me “entretinha” a montar o aparelho fixo do navio – os brandais fixos e volantes e as enxárcias de cada um dos mastros bem como os diferentes estais – que sustentam os quatro mastros do modelo (gurupés incluído).

 

A partir daqui, iniciei o “caminho das pedras” da montagem dos diferentes cabos que integram o aparelho de laborar, quer das velas quer das vergas (e outros) que, pela sua complexidade – principalmente quando já muitos dos cabos estão montados, o que leva a que para o próximo seja sempre mais difícil determinar o caminho correto a seguir através da “teia de aranha” que se forma, até à malagueta correspondente – necessita de muita atenção e de muita paciência. E de resiliência, pois a “tentativa e erro” é a técnica mais usada mas muito desesperante e cansativa.

Cada uma das velas foi equipada com os cabos de laborar que existem no navio “real” a saber: escotas e amuras, estingues, braços, amantilhos, brióis, bolinas, amantes das bolinas, apagas, sergideiras, lais com as respetivas talhas, poas, garrunchos e rizes. Um aparelho de laborar deveras complexo e que só funciona se cada coisa estiver no seu lugar.

Valeu-me a nitidez e a perfeição dos planos da “Billing Boats” que usei, pois indicam corretamente a morada de todos os cabos.

Num cantinho da minha oficina ficou permanentemente montado o plano – ao qual recorri frequentemente – com o esquema de montagem dos diferentes cabos.

 

IMG_1889.JPGAqui, o início da montagem dos cabos de manobra do mastro grande.

 

Este trabalho foi iniciado pela colocação das escotas nas velas latinas (triangulares) entre mastros que, neste tipo de navio são uma por cada bordo.

Seguiu-se a colocação do massame de laborar no mastro do grande, depois no mastro do traquete e por fim no mastro da mezena sendo esta última tarefa a que está documentada nas duas fotografias a seguir.

 

IMG_1891.JPG

A separação dos diferentes cabos das velas redondas da mezena – 4 por vela em cada bordo – levou à necessidade de “inventar” um espalha cabos que possibilitasse a montagem simultânea dos mesmos a fim de evitar a necessidade de repetir muitas vezes as passagens entre eles, por tentativa e erro.

 

IMG_1892.JPGPara todos os mastros, os cabos foram classificados por letra (vela) e número (função do cabo) e pendurados “aconchegados” por molas, o que permitiu ir ajustando gradualmente a tensão sobre as velas a fim de todas estarem orientadas aparentemente sob o mesmo quadrante de vento. Depois, foi “só” amarrar cada um na malagueta correspondente nas mesas de malaguetas. Mais tarde, foram acrescentadas as aduchas.

 

IMG_1914.jpgE funcionou! Todo o massame no lugar e o navio a entrar em “fabricos” de acabamento.

 

Nesta fotografia podem-se observar, na mesa de malaguetas do costado de bombordo, (na zona ante avante do mastro grande) 3 cabos já aduchados.

 

CS-2.jpgEste é o resultado final da construção

 

Procurei juntar uma nota didática a este modelo e por isso, como se pode observar na fotografia seguinte, a base de mogno do expositor foi aproveitada para exibir uma série de informações pertinentes que permitam, a qualquer observador mais interessado, conhecer a nomenclatura das diferentes partes do navio – nome das velas incluído – em português e inglês, já que a maioria da literatura técnica que aborda esta temática é neste último idioma.

CS-1.jpgO modelo e a sua “base” informativa.

 

Esta base informativa foi pensada para proporcionar um tipo de informação que normalmente nunca está disponível junto aos modelos em exposição e que, na minha opinião, é importante fornecer.

Assim:

CS-3.jpgO Diagrama

 

Do lado esquerdo da base encontra-se um diagrama, orientado da mesma forma que o modelo, com um perfil do navio que desenha todas as velas bem como as partes essenciais do mesmo. O nome de todas as velas usadas no “Cutty Sark” e a nomenclatura das velas e das partes essenciais do navio encontra-se numa lista por cima deste diagrama.

 

CS-4.jpgA História I

 

Segue-se uma resenha histórica sobre o “Cutty Sark” por períodos respeitantes às várias situações do navio ao longo dos tempos:

 

  • Inglaterra – Como “Cutty Sark” – “John “Jock” Willis” – (1869-1895) – Vendido a “J.A.Ferreira”/Portugal;
  • Portugal – Como “Ferreira” – “J.A.Ferreira” – (1895-1922) – Vendido a “Companhia Nacional de Navegação” /Portugal;
  • Portugal – Como “Maria do Amparo” – “Companhia Nacional de Navegação” – (1922-1922) – Vendido a “Wilfred Dowman” /Inglaterra;

 

CS-5.jpgA História II

E do lado direito:

  • Inglaterra – Como “Cutty Sark” –" Wilfred Dowman" – (1922-1938) – Oferecido a “Thames Nautical Training College" /Inglaterra;
  • Inglaterra – Como “Cutty Sark” – “Thames Nautical Training College” – (1938-1953) – Cedido à “Cutty Sark Preservation Society” /Inglaterra;
  • Inglaterra – Como “Cutty Sark” – “Cutty Sark Preservation Society” – (1953, até aos nossos dias como navio museu em Greenwich).

 

CS-6.jpg

O Navio

 

Do lado direito, as características mais importantes do navio real

 

CS-7.jpgO Modelo

 

E no centro, as características principais do modelo.

 

CS-8.jpgO revestimento em placas de cobre usado no modelo

 

Já após o modelo completo e depois de muitas hesitações, resolvi chapear em cobre o casco do navio até à linha de água, tal como no navio real.

Esta minha hesitação prendeu-se principalmente com o preço proibitivo que me era pedido pela aquisição das chapas necessárias a esta operação pois, uma folha de cobre com 500 placas – que nem sequer tinham as medidas á escala em que eu construí o modelo – ficaria, vinda dos USA, pela módica quantia de €80,00 cada, com portes, e parece que teria de pagar direitos em Portugal. E fazendo bem as contas, precisava no mínimo de 10 folhas e de fazer um grande desperdício com o ajustamento à escala. Pensei 30 vezes. Até porque o tamanho das placas exigia um trabalho de “corte e costura” difícil e moroso.

Tive sorte pois consegui arranjar, por mero acaso, uma solução alternativa. Descobri a existência de um rolo de fita de cobre, autocolante, usado em vitrais, com uma largura possível de adaptar sem muita mão d’obra à minha escala e que custou… €16,00.

Havendo o contra do modelo estar completamente pronto – com exceção do forro de cobre – houve a necessidade de fabricar um estaleiro que me possibilitasse assentar o casco do navio com a quilha para cima ou seja, virá-lo de pernas para o ar e mantê-lo nessa posição de uma forma fixa que permitisse fazer pressão sobre o casco. É de notar que os mastros já estavam incorporados na estrutura e que foi necessário assentar o casco invertido pela amurada do navio deixando espaço por debaixo para encaixar os mastros. Foi o que foi feito.

A fita de cobre – que tinha uma largura com 2mm mais do que a escala – foi lixada em rolo até à medida exata e foi envelhecida com vinagre de vinho tinto para lhe dar um aspeto o mais possível perto do cobre envelhecido. As placas foram gravadas em fitas com o comprimento aproximado do casco, imitando as reais – com saliências que procuram representar as cabeças dos rebites usados para as fixar ao casco – e foram aplicadas cuidadosamente ficando com o aspeto que se pode ver na fotografia. Parece que deu resultado.

 

 

(continua)

Um abraço e …

Bons Ventos