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Mar & Arte

Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

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Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

08.07.19

43 - Modelismo Naval 7.19 - "Cutty Sark" 2.16


marearte

 

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Os incêndios no “Cutty Sark”

 

O 1º Incêndio – 21 de Maio de 2007

 

Na manhã do dia 21 de Maio de 2007 estalou um dramático fogo a bordo do “Cutty Sark” cujas primeiras imagens levavam a crer que o navio tinha sido arrasado de uma forma devastadora.

 

220px-Cutty_Sark_fire.jpgO “Cutty Sark” a arder no início da manhã de 21/05/2007

 

_42950647_flames203pa.jpgUma imagem que prenunciava a perda do “Cutty Sark”.

 

220px-The_Cutty_Sark,_burnt_out_-_geograph.org.uk_-_445455.jpgO aspeto do estaleiro no dia após o incêndio.

 

O navio ardeu durante várias horas antes dos bombeiros de Londres conseguirem controlar o incêndio. Os primeiros relatos indicavam que os danos eram profundos e extensivos, com quase toda a estrutura em madeira a meia-nau perdida.

 

cutty00 (1).jpgO que sobrou do “Cutty Sark”.

 

Como a maior parte projeto de conservação já estava em andamento, os mastros originais do “Cutty Sark” e um grande número de pranchas haviam sido removidos e armazenados antes do momento do incêndio. Por isso, por volta de 90% do navio hoje em Greenwich, ainda é o original.

 

Devido ao incêndio, o projeto de restauração levou 18 meses a mais do que o previsto inicialmente e custou mais £ 10 milhões, elevando o custo total, segundo o “The Daily Telegraph” de Fevereiro de 2010, para £46 milhões.

 

Numa primeira abordagem foi posta a hipótese do fogo ter sido posto. Vinte e três dias depois do incendio ainda não se tinha conseguido determinar qual a causa do mesmo. Mais tarde foi determinado que, muito provavelmente, o fogo foi causado por um aspirador industrial que ficou a funcionar durante todo o fim-de-semana, aliado à não existência de vigilantes noturnos. De qualquer forma, esta “conclusão” não é, de todo, “conclusiva”.

article-1029082-02C7BAFD000004B0-627_468x460.jpgO que ficou do “Cutty Sark” para restauração, depois do incêndio.

 

Como parte do projeto de trabalho de rconservação para o navio, estabelecido antes do incêndio, estava proposto que o navio fosse elevado do chão da doca seca 3m (10 ft) permitindo assim a existência de um vasto espaço livre por debaixo do navio que seria destinado a museu e permitiria aos visitantes a visão do casco por debaixo.

 

As opiniões dividiram-se entre os que pretendiam conservar o navio o mais possível dentro da forma original de exposição – “Cutty Sark Trust”, os que pretendiam aproveitar a reconstrução para tornar o navio novamente navegável e os que estavam mais preocupados com as acessibilidades do que com a preservação do navio como monumento histórico.

 

A corrente que defendia a possibilidade de realizar a recuperação do navio de forma a torná-lo navegável – confesso que eu fui um dos adeptos desta solução – não tinha grandes hipóteses de o conseguir já que, nos anos 50 do século XX, foi feita uma porta de acesso através do casco, da quilha e da sobre quilha e de que muitas pranchas do casco não ofereciam grande garantia de estarem nas melhores condições.

 

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Os “fabricos” da restauração do “Cutty Sark” depois do incêndio.

 

O “Cutty Sark Trust” afirmava que menos de 5% do navio original se tinha perdido no incêndio já que os conveses destruídos foram adicionados depois da construção do navio, não fazendo parte dos planos originais.

 

Também a “The Victorian Society” criticou o projeto afirmando que as necessidades do mercado foram postas acima da preservação histórica do navio.

 

A revista “Bulding Design” distinguiu o projeto com a “Carbuncle Cup” destinado a premiar o pior novo projeto completado em 2012 afirmando: “A grande quantidade de fracassos do projeto tem origem numa escolha calamitosa: a decisão de suspender o “clipper” de 144 anos de idade, a três metros de altura, em suportes de cantoneira de aço.”

 

2019-07-06 (4).pngRestauração da roda de proa e do costado do “Cutty Sark”.

 

Como em todo o mundo e no que diz respeito a projetos deste género, houve as mais díspares opiniões, umas bem fundamentadas outras, nem por isso.

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A colocação das tábuas no convés do “Cutty Sark”.

 

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A colocação dos vergueiros na balaustrada de estibordo (mastro grande) do “Cutty Sark”.

 

Mas os resultados falam por si – o “Cutty Sark” é exibido hoje de uma forma que dá acesso como nunca antes e o navio que se vê hoje é basicamente o mesmo que quando ele carregava chá de Xangai para Londres. Foi reaberto ao público, por Sua Majestade A Rainha em 2012.

2019-07-04 (2).pngSua Majestade A Rainha no dia da reabertura (é a única, de vermelho, ao fundo da fotografia)

 

 

O projeto de preservação envolveu o tratamento siderúrgico da estrutura metálica do “Cutty Sark” e o uso de sistemas especiais de pintura para evitar mais deterioração, a consolidação das pranchas de madeira do casco, e a substituição dos cavaletes e a modificação da forma das paredes da doca seca para apoiar o casco uniformemente. A quilha, o convés principal e o revestimento do casco foram todos substituídos.

 

Para preservá-lo ainda mais, um telhado de vidro foi construído ao nível da linha d'água para que tudo abaixo dele estivesse protegido de fenómenos climáticos agressivos.

 

Antes dessa restauração, o “Cutty Sark” tinha escritórios e oficinas a bordo e, em 1950, tinham sido adicionados um falso convés no porão e uma escada. Tudo isto foi removido e a doca seca foi alargada para criar um espaço para eventos.

 

Outra prioridade foi melhorar o acesso para visitantes com pouca mobilidade. Infelizmente, não é possível tornar todas as áreas acessíveis mas, em áreas onde isso não foi possível, foram instaladas “webcams” para visualização dos interiores.

 

O 2º Incêndio – 19 de Outubro de 2014

Na manhã do dia 19/10/2014, ocorreu um outro fogo que deflagrou no convés do “Cutty Sark”. Uma pequena parte do convés três e algumas madeiras do casco foram danificadas no incêndio. A Brigada de Incêndio de Londres conseguiu conter o incêndio dentro de uma hora e o navio foi reaberto ao público logo após.

 

 

 

 

O “Cutty Sark” como Navio Museu nos nossos dias

 

“Preservar o “Cutty Sark” para as gerações futuras não é apenas restaurar o seu casco e as madeiras - o projeto de restauração tem como objetivo que o ”Cutty Sark” seja o mais sustentável possível, fazendo dele mais do que apenas uma atração histórica. Então, agora temos um café a bordo, um estúdio de teatro e um programa de ”workshops” e eventos familiares. Tudo isso dá aos visitantes uma razão para voltarem e voltarem, e levarem  vida a um antigo navio.

 

Estamos sempre a trabalhar no duro para conservar e restaurar muitos aspetos deste navio histórico. Um trabalho recente incluiu a preservação dos botes salva-vidas e o dourado dos baixos-relevos decorativos do espelho da popa e das alhetas da proa, juntamente com todos os outros trabalhos de conservação feitos constantemente pela nossa equipe de manutenção de navios.”

 

Este texto, reproduzido de um folheto publicitário atual sobre o “Cutty Sark”, reflete bem a orientação sobre o navio que pretende conservá-lo, dentro da medida do possível, como monumento nacional imprimindo-lhe uma dinâmica de “museu vivo”.

 

Como disse atrás, a minha preferência teria sido pela recuperação do “Cutty Sark” como navio navegável, o que se provou não ser possível. Apesar disso, não estando de forma alguma contra as soluções encontradas para a recuperação pois entendo que em muitos casos são as tecnicamente mais corretas – como por exemplo a “elevação” da quilha em 3 metros e a aparente “flutuação” do casco – preferia a forma de exposição anterior ao incêndio que, na minha perspectiva, estava mais próxima ao navio “real”. Mas quem sou eu para estar a mandar “bitaites”?

 

Aqui ficam alguns aspetos do atual museu “Cutty Sark” naquilo que tem de mais importante e que é de realçar.

 

120420034347-cutty-sark-gallery-1-horizontal-large-gallery (2).jpgO “Cutty Sark”, visto pela amura de estibordo já quase totalmente recuperado, antes da sua abertura oficial ao público. Destaca-se, pelo seu tamanho, o característico gurupés como também a cobertura transparente que cobre toda a área da doca seca rodeando o casco do navio, a partir da linha de água.

 

120420034806-cutty-sark-gallery-3-horizontal-large-gallery (2).jpgO “Cutty Sark” visto pela proa e do interior da área coberta. Destaca-se a proteção de chapas de latão (ainda reluzentes) bem como as várias colunas estruturais que “elevam” o navio, e também a estrutura reticular em aço e vidro da cobertura. De notar que os pontos de contato das colunas estruturais com o casco do navio situam-se quase ao nível da linha de água e com uma incidência de, por volta de 45o, o que minimiza a pressão exercida sobre a estrutura do casco. Uma ótima solução.

 

120420035114-cutty-sark-gallery-5-horizontal-large-gallery (2).jpgA popa do “Cutty Sark” vista do interior da área coberta. A estrutura de cobertura foi construída em cantoneira de aço e coberta de vidro.

 

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A proa do “Cutty Sark” vista do interior da área coberta. De notar que, por cima de cada uma das vinte colunas estruturais que sustentam o navio existe um cabo de tração, que amarra no último degrau da “doca seca” e que permite o alinhamento preciso das colunas.

 

2019-07-05 (6).pngAs bombas de escoamento da água do porão atestam o cuidado posto na recuperação dos metais de todo o navio. Todos os cabos se encontram aduchados nas respetivas malaguetas e as madeiras estão como novas. Um ótimo trabalho de restauração.

 

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Abaixo da quilha do “Cutty Sark” espraia-se uma ampla área que ocupa a antiga doca seca, que pode ser considerada um “espaço multiusos” pois, além das exposições permanentes (do lado de onde foi tirada a fotografia encontra-se a coleção de “carrancas” de navios, do museu), pode ser usada para qualquer outro evento que possa ser programado.

 

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Um pormenor do painel de popa do “Cutty Sark” que denota o cuidado apurado posto na restauração da talha dourada que o navio ostenta.

 

Termina aqui a segunda série de posts dedicados ao "Cutty Sark". No primeiro post sobre este navio expressei a minha intenção de dedicar 3 posts ao mesmo abrangendo 3 aspetos. conforme o esquema que apresentei:

 

"Nos três posts que irei apresentar, este e os dois seguintes, irei abordar o “Cutty Sark” em três perspetivas, a saber:

  • Numa primeira, o “clipper” real na caracterização técnica da construção;
  • Numa segunda, o “clipper” real na sua história;
  • Numa terceira, o modelo que construí."

 

O primeiro aspeto sobre as especificações técnicas do navio real foi contemplado no post 25 (1) de 04/01/2018;

O segundo aspeto que contempla a história da vida do "Cutty Sark", foi-se alargando em vários "capítulos" e foram publicados 16 posts (2.1 a 2.16, este) que, de uma forma quase exaustiva, acompanharam a história do "Cutty Sark" desde a sua génese até aos nossos dias.

O terceiro aspeto irá focar a construção do modelo do navio o que se irá iniciar no próximo post e irá ser composto por 1 ou 2 "capítulos".

 

(continua)

 

Um abraço e …

Bons Ventos