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Mar & Arte

Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

Mar & Arte

Artesanato Urbano de Coisas Ligadas ao Mar (e outras)

21.01.14

3 - Arte de Marinheiro 1 - Nós


marearte

 

 

 Caros amigos 

 

 No que diz respeito a "cordas", comecemos pela terminologia usada na marinharia.

 

Toda a gente sabe o que é uma corda, um cordel, uma guita. Pois a partir de agora estão impedidos de usar estes temos. São "cabos". Por piada diz-se que num navio só existem duas cordas - a corda do sino e a do relógio do comandante... se não for digital, digo eu.

 

Todas as profissões têm uma terminologia específica, muitas vezes só entendível pelos próprios. E este é um caso em que isso é levado ao extremo. Mesmo quando se consultam os dicionários de linguagem de marinharia, quer actual quer antiga, muitas vezes o resultado é frustrante. Querem um exemplo? Aqui vai!

 

O que é uma "chapa de arreigadas"? O verbete do dicionário diz: "Peça que envolve a garganta das arreigadas e onde encapelam os amantilhos". É a mesma coisa que eu explicar a teoria da relatividade em mandarim ao meu neto que tem 3 anos. É chinês. Só é entendível pelos iniciados.

 

Agora, se eu disser - embora caindo no risco de perder a precisão técnica e de ser acusado de iconoclasta - que é um sítio, num mastro por exemplo, onde são fixados cabos que servem normalmente para sustentação  e outras vezes também para movimentação, o meu neto continua a não perceber mas os adultos já têm um melhor entendimento do que se trata. E se eu apresentar um desenho, melhor ainda.

 

E eu não lhe posso chamar outra coisa senão "chapa de arreigadas" pois essa é a terminologia correcta. Chamar-lhe outra coisa, isso sim,  seria errado.

 

No entanto, para cada um dos nomes dos nós que constam nestes quadros vou dar uma explicação da sua aplicação e para isso vou tentar "traduzir" a linguagem ténica correcta para um português mais entendível pelos não iniciados.

 

É de notar que esta coisa dos nós não é só aplicável na marinha. Têm toda a aplicação no nosso dia a dia. Num dos quadros agora apresentados existe um nó que se chama "Nó direito pronto a disparar para os dois lados". O nome assusta. Parece uma arma de guerra que tenha a particularidade de matar o visado e o próprio atirador. Nada disso.  Trata-se, nem mais nem menos, do que o nosso prosaico... nó de atacadores!

 

Muitas vezes, a dificuldade de compreensão de determinadas coisas leva as pessoas a afastarem-se dessas coisas. E eu gostaria de passar a ideia que, a Arte de Marinheiro está para além dos quadros que todos nós conhecemos. Os nós, as pinhas, os coxins, as gachetas fazem parte da vida nos navios, mesmo dos actuais. Têm utilidade na manobra dos navios e, em especial no que diz respeito à navegação à vela, são como as porcas, os parafusos, as alavancas que articulam toda a complexidade da engenharia de um veleiro.

 

A ideia que preside à feitura dos quadros que são apresentados neste post tem a ver com a divulgação da Arte de Marinheiro - já suficentemente divulgada - mas de uma forma não só com outro enquadramento estético como também didáctico.

 

No que diz respeito à estética, a apresentação tradicional dos quadros de Arte de Marinheiro, salvo algumas excepções, é um bocado pesada, e só despertam o interesse de quem está ligado ao "metier". Por isso, fugi desse forma tradicional e tentei tornar os quadros mais leves e enquadráveis em ambiemtes actuais.

 

Por exemplo, o fundo tradicional destes quadros é de pano verde - ou outro material - a moldura em tons escuros e a indispensável cercadura de nós de esquadria e costumam ser grandes e estes quadros são apresentados com moldura de 32,8 X 27 cm, em madeira natural, com fundo constituído - no que diz respeito aos nós - pela reprodução de desenhos de arquitectura naval - se assim lhe podemos chamar - em tons de castanho, retirados do "Livro de Traças de Carpintaria" de Manoel Fernandez elaborado em 1616, cinco nós por quadro e apresentados duplamente numa forma digamos aberta que permite a análise da técnica de execução e noutra, "socados" ou seja, apertados. Nas costas dos quadros é apresentada a nomencltura dos nós bem como a sua utilidade. Alia-se assim a estética à didáctica.

 

As referências à utilidade foram retiradas do livro "Arte de Marinheiro" do Capitão-de-Mar-e-Guerra José Fernandes Martins e Silva - o meu manual de Arte de Marinheiro - que usa a referida terminologia de marinharia. Tentei "traduzir" os conceitos sublinhados e para isso usei o "Dicionário do Mar" de Sérgio Cherques na Edição de 1999.

 

Os conceitos básicos que neste momento são necessários - no que diz respeito aos cabos - serão o de bitola, chicotes e seio e para os compreender, suponham que têm um pedaço de cabo entre mãos. As duas pontas do cabo em que seguram chamam-se chicotes, a parte que fica entre os chicotes chama-se seio e a grossura do cabo é a bitola. A imagem que consta na referência "cabeço" do quadro 1.11/15 apresentado mais à frente também ilustra estes conceitos.

 

 

 

 

 

 

Arte de Marinheiro - Nós 1.1/5

 

1.1     – Laçada Singela: É o mais simples dos nós da Arte de Marinheiro.

1.2     – Nó de Azelha: Executa-se como se fosse uma laçada dada no seio de um cabo e serve para graduar provisoriamente um cabo, assinalando qualquer medida.

1.3     – Laçada Dobrada: Utiliza-se nos rosários das Bocas de Lobo.

1.4     – Nó Direito Vulgar: Usa-se para ligar dois cabos que não demandem muita força.

1.5     – Nó Torto: Tem largo emprego em diversos trabalhos de Arte de Marinheiro, nomeadamente nas Gachetas e nos Embotijos. Também pode ser usado para ligar dois cabos mas recorre facilmente.

 

 

rosários das Bocas de Lobo: Enfiada de caçoilos redondos (pequenas esferas ou cilindros com furo) que fecha a boca de lobo de uma carangueja de arriar:

 

 

Gachetas: Entrançado de cabo feito com merlin, fio de vela, etc., empregado para fins ornamentais e também de protecção. Existem diversos tipos e podem ser feitas com diferente número de fios:

 

Embotijos: Entrançados de fio com diversas aplicações a bordo para efeitos ornamentais ou com fins de protecção:

 

 

 

 

 

 

 

 

Arte de Marinheiro - Nós 1.6/10

 

1.6      – Nó Direito Pronto a Disparar para um Lado: Emprega-se quando se amarram dois chicotes com um Nó Direito e se espera que o nó soque muito com o esforço.

1.7      – Nó de Pega: Serve para facilitar a manobra de cabos, dando-lhes melhor pega. Deve utilizar-se sempre que se tenha de alar um cabo muito flexível e de pequena bitola.

1.8      – Nó de Pescador ou de Burro Singelo: Usa-se para emendar dois cabos de pequena bitola.

1.9      – Nó de Catau ou Catau de Espia Vulgar: Usa-se para encurtar cabos e/ou aproveitar cabos que estejam enfraquecidos em qualquer ponto do seu seio.

1.10    – Nó de Escota Singelo Vulgar: É um dos nós que é mais usado a bordo. Tem a propriedade de não socar quando molhado, razão pela qual é utilizado para emendar escotas. Usa-se para emendar cabos de bitolas diferentes ou feitos de materiais diferentes pois o Nó Direito, nestas condições, recorre.

 

 escotas: Cabos de laborar que se prende no punho das velas (punho da escota) e que serve para caçar (no sentido de "puxar") ou folgar os panos.

 

 

 

 

 

 

Arte de Marinheiro - Nós 1.11/15

 

1.11     – Lais de Guia Singelo pelo Chicote: Tal como o Nó de Escota este é um nó dos mais aplicados a bordo. Dá-se no chicotes de uma espia para o encapelar expeditamente num cabeço e nas boças das embarcações quando estas têm de ser rebocadas. Pode ainda servir de Balso.

1.12     – Lais de Guia Espanhol: Com as mesmas utilizações do anterior.

1.13     – Nó Coberto Derivado da Laçada: Utiliza-se para unir dois cabos de pequena bitola.

1.14     – Nó de Correr Cruzado: Utiliza-se para fazer a arreigada dum cabo, quando se deseja que esta seja tanto mais socada quanto maior for o esforço exigido.

1.15     – Nó de Correr ou Laço Vulgar: Com a mesma utilização do anterior.

 

cabeço: Peça de ferro existente no convés do navio próximo à borda ou no cais, que serve para dar a volta às espias. O desenho sguinte também exemplifica o que foi dito sobre o nome das partes dos cabos: 

 

 

boças: Nome genérico de vários cabos fixos em qualquer ponto das embarcações, destinados a aguentar sob esforço alguns objectos de bordo, outros cabos, amarras, embarcações, etc.:

 

 

arreigada: Arreigar = Fixar - No início deste post, no exemplo dado sobre a terminologia náutica, ja existe uma imagem de uma arreigada. 

 

 

 

 

 

 

Arte de Marinheiro - Nós 1.16/20

 

1.16     – Nó de Trempe, Nó de Oito ou Volta de Fiador – Singelo: Dado no chicote dum cabo serve para não o deixar desgornir um olhal ou gorne.

1.17     – Nó de Trempe, Nó de Oito ou Volta de Fiador – Dobrado: O mesmo que o anterior.

1.18     – Nó de Trempe, Nó de Oito ou Volta de Fiador – Singelo numa Mãozinha: O mesmo que o anterior

1.19     – Nó Direito – Pronto a Disparar para os Dois Lados: Emprega-se quando se amarram dois chicotes com um Nó Direito e se espera que o nó soque muito com o esforço. Também se emprega quando se pretende que o nó possa desfazer-se rapidamente.

1.20     – Nó Direito – Dobrado ou Nó de Cirurgião: Serve para unir dois cabos que portem em sentidos opostos e é também usado para rematar as suturas das intervenções cirúrgicas.

 

 desgornir: Saír do gorne:

 

 

 

 

 

 

Arte de Marinheiro - Nós 1.21/25

1.21     – Encapeladura de 2: Quando encapelada num mastro, o Nó de Encapeladura serve para substituir uma chapa de arreigadas, possibilitando a fixação de brandais, plumas, estais, etc., em número de 3

1.22     – Encapeladura de 3:O mesmo que a anterior, em número de 4.

1.23     – Encapeladura de 4: O mesmo que a anterior, em número de 5.

1.24     – Nó de Esquadria: Usa-se para fazer os cantos das molduras ou caixilhos executados com trabalhos de Arte de Marinheiro.

1.25     – Encapeladura de Anel: Serve para o mesmo das outras encapeladuras, em número de 4.

 

brandais: Cabos que aguentam os mastros para os bordos:

 

estais: Cabos que servem para sustentar os mastros para vante:

 

 

plumas: Cada um dos cabos que aguentam lateralmente, por exemplo, um pau de carga:

 

 

 

 

Esta série de quadros  consta de 25 nós que considero serem os essencias para a Arte de Marinheiro (há muitos mais tendo em conta as variantes) e estão à venda pelo preço de 35,00 Euros cada. Também se executam por encomenda com fundos diferentes (Cartografia, Blueprint e Planos)  e a moldura pintada de branco ou outras cores (com o acréscimo de 5,00 Euros).

 

Como os quadros das Rosas dos Ventos, para os comprar basta entrar em contacto para o email 

 

mareartenautilus@gmail.com

 

sendo a entrega feita pela através da PT ou de outra forma a combinar. Também pode contactar a "Tabacaria do Cinema" em Leiria (Teatro José Lúcio da Silva).

 

Estão previstas mais quatro séries que abrangem as Pinhas, os Coxins, as Gachetas e Diversos. Para quem o deseje, executo estes quadros na forma tradicional,

 

Um abraço

 

Mar & Arte